O Estádio Nacional do Zimpeto completa esta quinta-feira (23) 15 anos desde a sua inauguração. Ao longo deste período, a infra-estrutura viveu de tudo um pouco: momentos de luxo e de alegria para um povo que, até então, dependia do mítico Estádio da Machava, bem como períodos de incerteza sempre que se aproximava uma inspecção.
Tudo começou há dezoito anos, numa manhã de 22 de Abril de 2008, quando a família Pessane e os seus descendentes permitiram a transformação definitiva da sua terra. O pedaço de chão que a família Pessane guardava há gerações, sob gestão dos descendentes de Mwamudjoko, no bairro do Zimpeto, a Norte de Maputo, preparava-se para deixar de ser campo de mandioca e pasto para tornar-se o maior templo do desporto moçambicano desde a independência. Naquele dia 22 de Abril, às seis e vinte e três da manhã, quando a reportagem do desafio chegava ao local chefiada pelo saudoso César Langa e com o repórter fotográfico Domingos Elias a documentar cada momento, o então Ministro da Juventude e Desportos (MJD) David Simango, acompanhado do embaixador chinês Tian Guangfeng, lançava a primeira pedra do que viria a ser o Estádio Nacional do Zimpeto (ENZ). A família Pessane dera luz verde. O Governo, através do MJD, levantaria ali uma infra-estrutura que faria daquele local uma referência internacional, envolvendo pessoas de diferentes extractos sociais, entre desportistas, turistas e comerciantes.
Mas a história do “Zimpeto” começara antes, numa sessão do Conselho de Ministros a 13 de Julho de 2010 ficou decidido que aquele empreendimento merecia o estatuto de “Nacional”. E ainda antes, em 2005, quando o Presidente Armando Guebuza iniciara negociações com o seu homólogo chinês Hu Jintao. A ideia ganhara força no 70.º aniversário de Mário Coluna, o “Monstro Sagrado”, e concretizara-se com a assinatura de um memorando em 2006, após peritos chineses concluírem que o terreno do Zimpeto era melhor que as alternativas de Marracuene, Matola (Tchumene) e Boane.
O projecto nasceria de uma ambição maior: a candidatura de Moçambique ao Campeonato Africano das Nações (CAN) de 2010. A Federação Moçambicana de Futebol (FMF) vislumbrara três estádios — um em Maputo, um na Beira ou Chimoio, outro em Nampula. O de Maputo avançou primeiro, com a ideia de albergar selecções em preparação para o “Mundial” da África do Sul em 2010. Mesmo após a atribuição do torneio a Angola, o Governo decidiu prosseguir.
A federação deixou de ter a mão no projecto, que passou a pertencer ao Ministério da Juventude e Desportos (MJD).
A construção, a cargo da empresa chinesa Anhui Foreign Economic Construction Corporation, mobilizou 1110 trabalhadores — 354 chineses e 756 moçambicanos. Não foi um processo pacífico: greves por incrementos salariais marcaram os 36 meses de obra, com trabalhadores moçambicanos a reivindicarem melhores condições. Houve ainda dois adiamentos da entrega, prevista inicialmente para 11 de Dezembro de 2010, depois 27 do mesmo mês, até que a 17 de Janeiro de 2011 o então vice-Ministro do MJD Carlos de Sousa recebia as chaves, representando o Governo chinês o embaixador Huang Songfu.
Um “falso alarme” percorreu o país quando se noticiou que a FIFA teria “chumbado” o estádio. A realidade era diferente: o organismo apenas deixara recomendações para melhorias, nomeadamente o tratamento e rega diária da relva, e o aumento do espaço de balanço para pontapés-de-canto. As correcções foram atendidas, resultando na certificação final. A 21 de Abril de 2011 os “Mambas” pisavam o relvado pela primeira vez num treino nocturno, precedido pela selecção de atletismo que treinara no tartan tendo em vista os X Jogos Africanos. Dois dias depois, 23 de Abril, a inauguração. Já lá vão 15 anos , quer por terra, quer por ar, o majestoso ENZ reluz o seu charme no horizonte sobrevivendo às quedas e intempéries que o tempo não perdoa. Nesta quarta-feira, o país vai lembrar o nascimento deste gigante que ainda palpita.
Armando Guebuza, antigo Presidente da República, proclamava na cerimónia que aquele era “o escrever, em letras douradas, uma página na história da nossa Pátria Amada”, acrescentando que “com este empreendimento, está mais um polo de desenvolvimento da cidade de Maputo. Maputo está a registar mudanças. Moçambique está a crescer. O povo moçambicano, este povo heróico e especial, está a vencer a pobreza, no campo e na cidade.” E se as palavras do presidente carregavam o peso da política, o futebol encarregou-se de torná-las verdadeiras. Perante cerca de 40 mil espectadores, o avançado Jerry marcou aos 17 e 50 minutos, selando a vitória por 2-0 sobre a Tanzania. A história repetia-se: a 26 de Junho de 1975, em Pemba, Moçambique vencera a mesma Tanzania por 3-2 no primeiro jogo oficial como país independente, com golos de Sitoe, Rui Marcos e Doença.
O “Zimpeto” erguia-se imponente: 42 mil lugares, três pisos de bancadas, espaço VIP coberto, duas telas gigantes uma frente à outra para permitir a visualização de lances, parque de estacionamento para 25 mil viaturas, dois elevadores e rampas para portadores de deficiência, laboratório antidoping, posto médico, sala de registo de atletas e 3800 metros quadrados de espaço comercial. Um complexo de 25 hectares orçado em 57 milhões de dólares, financiados pela China.
Em Setembro de 2011, o estádio acolheu os X Jogos Africanos, o maior evento desportivo organizado pelo país desde a independência. Cerimónias de abertura, atletismo, futebol e encerramento transformaram Moçambique no centro do desporto africano.
A delegação nacional conquistou 12 medalhas — quatro de prata e oito de bronze — terminando em 24.º lugar. O “Zimpeto” cumpria a sua missão.

