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"Saio com o coração cheio e com a cabeça erguida. Orgulhoso do que vivi, do que conquistei e do que representei".
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MAMBAS

EM CARTA EMOTIVA, REINILDO DESPEDE-SE DOS MAMBAS COM “GRATIDÃO E RESPEITO”

O internacional moçambicano, Reinildo Mandava, acaba de publicar uma carta nas suas redes sociais confirmando a sua despedida da Selecção Nacional de Futebol, Mambas, com o “coração cheio de gratidão, emoção e respeito”.

Eis a missiva na íntegra:

“Foram muitos anos de entrega total à camisola da nossa Seleção Nacional — uma jornada que começou quando ainda era apenas um miúdo, cheio de sonhos e vontade de honrar o nome do nosso país.

Hoje, aos 31 a caminho dos 32 anos em alguns dias, sei que para muitos vão falar que é jovem e sim sou, mas não tem nada a ver com isso mas sim pela lesão grave que eu tive e está na hora de ouvir o meu corpo.

Sinto que é chegada a hora de fechar este ciclo tão bonito e tão marcante da minha vida.

Desde esse primeiro momento até aqui, vivi tudo com paixão. Levei a nossa bandeira comigo por onde quer que jogasse, sempre com orgulho e sentido de missão.

A Seleção Nacional foi, e será sempre, uma parte essencial da minha história — moldou-me como homem, como atleta e como exemplo para os meus filhos.

Ao longo desta caminhada, vivi alegrias e desafios profundos. Perdi a minha mãe, o meu pilar, numa fase em que o futebol já me levava longe de casa, casei, construí uma família, e hoje sou pai de dois filhos maravilhosos e de uma bebé recém-nascida que me enche o coração de força e responsabilidade.

Tudo o que conquistei devo também a eles, porque são o meu maior motivo para continuar a lutar e a inspirar.

Foram anos de muito trabalho e superação, passei pelo Ferroviário da Beira e pela Liga Desportiva de Maputo, antes de embarcar na aventura europeia que mudou a minha vida, joguei no Benfica B, no AD Fafe, no SC Covilhã e no Belenenses SAD, até chegar a França, ao LOSC Lille, onde tive a honra de ser campeão da Ligue 1, ser o melhor lateral esquerdo da França e vencer o Trophée des Champions. Depois veio o Atlético de Madrid, um dos maiores clubes do mundo, onde vivi momentos intensos e, infelizmente, também a grave lesão que sofri frente ao Real Madrid. Foi um período difícil, mas de grande aprendizagem.

Hoje, realizo outro sonho: o de jogar na Premier League inglesa, ao serviço do Sunderland AFC, o campeonato que sempre admirei desde criança.

Essa lesão mudou muito a minha forma de ver o futebol e a vida. Aprendi que o corpo tem limites e que o tempo nos ensina a escolher com sabedoria, desde então, tenho-me esforçado ao máximo para dividir o meu compromisso entre o clube e a Selecção, mas com o passar dos anos tornou-se cada vez mais difícil com a lesão grave que tive as longas viagens entre continentes, voos apertados e os fusos horários, o desgaste físico e emocional — tudo isso pesa mais hoje do que antes, e é por amor e respeito à Selecção, e não por cansaço, que decido dizer: é tempo de deixar espaço para os mais novos.

Esta decisão foi pensada com o coração, queria despedir-me depois do Campeonato Africano das Nações (CAN), que se realizou agora, Dezembro de 2025 em Marrocos, vestindo pela última vez a nossa camisola, entoando o Hino Nacional com lágrimas de orgulho, e dando tudo até ao último minuto, como sempre fiz.

Queria sair de campo com a alma leve, sabendo que dei o melhor de mim ao meu país e assim o fizemos.

Durante todos estes anos, a Selecção deu-me tanto, deu-me identidade, ensinou-me disciplina e representatividade, ajudou-me a crescer, a chegar onde cheguei, e foi por isso que recebi, com humildade e emoção, a Medalha de Mérito Desportivo — um dos maiores reconhecimentos que um atleta pode sonhar receber.

Mas mais do que medalhas e troféus, o que levo comigo são as memórias: o Hino antes de cada jogo, os sorrisos dos adeptos, os abraços no balneário, as lágrimas das vitórias e das derrotas.

A todos os treinadores, colegas de equipa, dirigentes e adeptos que me acompanharam ao longo destes anos, o meu muito obrigado. Obrigado por acreditarem em mim, por me empurrarem nos momentos mais difíceis e por fazerem de mim um homem melhor.

Agradeço também à minha família, que sempre foi o meu porto seguro — ao meus pais, à minha esposa e aos meus filhos, que são a minha maior vitória.

Saio com o coração cheio e com a cabeça erguida. Orgulhoso do que vivi, do que conquistei e do que representei.

Continuarei sempre a torcer pela Selecção, agora do lado de fora, como um adepto apaixonado, como um pai que quer que os seus filhos cresçam vendo Moçambique a sonhar e a vencer.

Com todo o respeito, gratidão e amor pelo meu país, obrigado por tudo o que vivi com esta camisola.

Com estima e eterna consideração…

REINILDO ISNARD MANDAVA”.

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