As últimas semanas têm sido muito pouco tranquilas para o seleccionador nacional Chiquinho Conde. A pressão à volta do técnico, devido a não chamada do capitão Dominguez, o mais internacional de sempre pelos “Mambas”, tem subido de tom e causado um mal-estar que começa a roçar a falta de respeito até para os jogadores, que na última dupla jornada, a bem ou mal, defenderam como puderam as cores da equipa nacional.
É verdade que cada um é livre de dar a sua opinião, mas quando esta transcende o bem colectivo, em prejuízo do individual, perde todo o sentido, pois o valor de uma nação está acima de tudo e deve ser salvaguardada a “sete chaves”.
O que aconteceu ao minuto 70 do jogo entre Moçambique e Botswana, com milhares de adeptos a chamarem pelo nome de Dominguez, foi um acto de total desrespeito para os onze jogadores que estavam dentro do campo e por todos os outros que estavam no banco de suplentes. Naquele momento, os “Mambas”, embora estivessem a ganhar (1-0), o Botswana dava mostras de que poderia empatar e era fundamental que os que estavam a suar a camisola dentro das quatro linhas se sentissem galvanizados pelo público, que como se diz na gíria futebolística é o 12.º jogador.
Tenho a certeza de que naquele período difícil do jogo Bruno Langa, Reinildo, Guima, Witi, Pepo ou Faisal Bangal queriam ouvir os seus nomes para ganhar fôlego e encontrar a “fórmula” capaz de arrumar de vez com as contas do jogo, mas não foi o que aconteceu. Foi chamado ao terreiro alguém que, por razões já explicadas, não fez parte da missão. É preciso que fique claro que ao fazer esta crítica não quero de forma alguma pôr em causa o valor e a qualidade do nosso Dominguez. Reconheço, sim, o peso e a sua importância na Selecção Nacional e até acredito que ainda tenha o seu espaço. Os números falam por si. Além de ser o mais o internacional por Moçambique, com 115 internacionalizações, é o segundo melhor marcador da história da selecção, com 17 golos (só atrás de Tico-Tico), e é inquestionável que sempre que foi chamado deu tudo pelo país que o viu nascer, fazendo alegria de milhões de adeptos moçambicanos com os seus dribles desconcertantes, passes certeiros e golos, alguns de lhe tirar o chapéu. Confesso que sou um adepto de Dominguez, afinal quem gosta de bom futebol não tem como não gostar de Elias Pelembe, mas também não se pode esquecer que as pessoas passam e a selecção fica. Por ela já “desfilaram” centenas, quiçá, milhares de jogadores, uns com maior, outros com menor qualidade, mas o que não se pode perder de vista é que nunca se deve esquecer do colectivo em defesa, por vezes, de inconfessáveis desejos individuais. Quero crer que pelo pouco que conheço de Dominguez, com quem já tive oportunidade de conversar - pessoa afável, humilde e sensata - terá ele mesmo reprovado os apupos, embora de forma indirecta, que os seus colegas sofreram.
Caros moçambicanos, adeptos da Selecção Nacional, o momento é de acarinhar a equipa de todos nós e transmitir todo o apoio ao treinador, Chiquinho Conde, que tem feito um trabalho fabuloso. Se os números de Dominguez são inquestionáveis, os de Chiquinho também o são. Desde que chegou, em 2021, os “Mambas” só têm subido de patamar. Voltou a colocar a bandeira nacional num CAN (Costa do Marfim 2024), algo que não acontecia desde 2010 (Angola), e para mostrar que não foi obra do acaso voltou a conduzir Moçambique para mais um “Africano”, agendado para Marrocos entre Dezembro e Janeiro próximos. Só na década 90, o país tinha conseguido estar na maior prova continental do desporto-rei em duas edições consecutivas, em 1996, na África do Sul, e em 1998, no Burquina Faso. Neste momento, o combinado nacional vai-se batendo com galhardia por uma qualificação inédita para o “Mundial”- 2026, algo que nem os mais optimistas imaginariam ser possível. Esse crescimento exponencial serviu para que Moçambique deixasse de constar na lista dos 100 piores classificados no “Ranking” da FIFA, por onde andou durante largos anos.
Durante o seu percurso, o “Mister” cometeu ainda a proeza de levar a equipa nacional pela primeira vez aos quartos-de-final do CAN-Interno (CHAN) Argélia-2022. Por tudo que Chiquinho Conde já fez e vem fazendo, por essa transformação positiva que fez na selecção, colocando-a de novo no “concerto” das nações; pela forma como muniu de qualidade e pressupostos de alto nível, ao ponto de hoje jogar de peito aberto com todas outras selecções africanas (viu-se no CAN-2024 diante do Egipto e Gana), pedir que seja lhe concedido apoio e paz para continuar a desenvolver o seu trabalho me parece muito pouco, já que por estas alturas deveria até ser homenageado por tudo que já fez. Dentro de pouco menos de um mês, Moçambique fará dois jogos decisivos de apuramento ao “Mundial”, com a Guiné-Conacri e Somália e, em Dezembro, disputará o CAN e será fundamental que a ligação entre treinador, jogadores, público esteja mais sólida do que nunca.
Povo moçambicano, em face dos compromissos que se avizinham e todas outras razões supracitadas lanço um apelo: deixem Chiquinho trabalhar!


