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LINHA DE PASSE

“REGIONAIS”: TERROR DOS GRAÚDOS

Sou um dos que prefere que o Campeonato Nacional I Divisão, o Moçambola, seja disputado no modelo “clássico”, ou seja, que todos os clubes intervenientes na prova joguem entre si, em duas voltas.

Vem à memória que durante anos residindo na capital do país, em várias viagens que fiz para cobrir os jogos naquele e o outro ponto, tive a oportunidade de viver emoções diversas em palcos do centro e Norte, digo também, até em outros do Sul.

Foram momentos que, além de conferir-me ensinamentos (aprendo todos os dias), me proporcionaram trocas de experiências, para mim,  que podem servir de ferramentas que permitem ter uma visão mais ampla em análises sobre este e aquele assunto. Afinal, um profissional de comunicação não deve apenas entender da sua área de trabalho. Essas vivências são como um “manancial” que confere melhor arcaboiço profissional.

Vamos aos factos: a realidade do país hoje dita novas regras, sobretudo pela situação delicada da economia nacional, criada por diversos factores, onde todos somos desafiados a ser menos consumistas, obrigando à ginástica de fazer bem e melhor com os meios disponíveis, mesmo que parcos.

É aqui onde reside o problema de muitos moçambicanos, como eu, defraudarem-se pela possibilidade do modelo mais desejado para que o Moçambola corra o risco de ser alterado. É que, diante das circunstâncias, a possibilidade desta forma de competição continuar é bastante remota, a não ser que surja, de facto, dinheiro e garantido para suportar a prova, mormente nas deslocações aéreas, sem nos esquecermos de que este não é o único problema para a realização deste tipo de campeonato. Há, por outro lado, também a situação financeira dos clubes chamados pequenos. Aqueles que não tendo o suporte assegurado de grandes empresas para garantir o pagamento das despesas dos salários dos seus profissionais, de alojamento e a alimentação nas deslocações, contando que não há despesas fixadas por semana. Aliás, este assunto já foi amplamente debatido. Dirigentes de associações, clubes e especialistas em contas falaram sobre este fenómeno, deixando patente que não basta apenas competir e no fim se declarar um campeão, pois com os desníveis evidentes a verdade desportiva é complemente posta em causa.

Também não podemos ignorar a saúde financeira da transportadora aérea, que faz deslocar as equipas do Moçambola de um ponto ao outro, que é extremamente delicada. Pelo que se apela à maior racionalidade e não se imponha que seja o futebol a proporcionar mais recaídas.

Lembramos que durante largo período a Liga de Futebol geriu a prova de forma emocionada. O importante era apenas ver o campeonato a começar e chegar ao fim. O ano passado foi a prova de que não é dessa forma, nem com amadorismo que se faz um campeonato dessa envergadura num país extenso como é o nosso. No fim, não houve dinheiro para terminá-lo.

Mesmo que não se assuma, foi a pior prova realizada no país, desde que se disputa o Campeonato Nacional e os clubes deviam pensar nisso, em primeiro lugar, antes de vir a terreiro gritar que o modelo de disputa deve continuar.

Os clubes devem ter sempre em mente que a Liga de Futebol “cavou” um buraco enorme. Um buraco que está acima de 100 milhões de meticais. Provavelmente, não estão preocupados porque a dívida não lhes será imputada. Mas, também, ninguém vai pagá-la. Também não será a Liga, nem a Federação que há dias, lembre-se, veio a público afirmar que passava a reassumir a gestão da prova, desmentindo-se em seguida, o que mostra uma enorme incoerência desse órgão que devia ser o exemplo de primor.

No meio desta irracionalidade, há, de permeio, medos e receios dos ditos “graúdos” do nosso futebol de enfrentar um Campeonato Regional, onde há riscos de não se qualificarem para a fase final, pois nos “Regionais” a luta será mais renhida e “escorregar” pode acontecer a qualquer um, independentemente do orçamento ou do nome que ostenta na praça desportiva. Ou seja, o “Regional” passou a ser o terror dos graúdos que, em suas campanhas, arrastam outros pequenos, também suportados por empresas do Estado, mas de orçamento menor.

Se surgir um “sponsor” com capacidade de dar garantias de fazer viajar as equipas de um ponto ao outro, sem sobressaltos, ninguém estará contra o modelo “clássico”. Mas, quem dirige o futebol deve  também fazer um exercício para que as equipas participantes no Moçambola ganhem algum dinheiro, também, mormente com as transmissões televisivas. Até ao momento, ganhar dinheiro com elas é falácia. A sua imagem dos clubes é explorada e nem um tostão sequer vai às suas contas.

Também pode-se optar por criar uma liga diferente. Uma competição daqueles que podem, e não com aqueles que simplesmente querem e que nela se definam regras que impeçam os desfavorecidos de estarem presentes.

Não vejo outra saída que não seja levar a mão à consciência sobre este assunto e tomar uma decisão mais acertada.  

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