Durante quase duas décadas foi uma das bases mais respeitadas do basquetebol africano. Defendia como poucos, liderava em silêncio e fazia da disciplina uma extensão da sua personalidade. Vestiu a camisola da selecção nacional em sete “Afrobasket’s, disputou um “Mundial”, conquistou medalhas continentais e integrou uma geração que fez Moçambique ser temido no panorama africano.
Chama-se Valerdina Manhonga e nesta entrevista destaca que o talento continua a existir no país, mas perdeu-se a disciplina, a cultura de estudar o jogo e de formar bem.
No basquetebol, há atletas que entram na história pelos pontos que marcam. Outras, pela forma como impedem os adversários de os marcar. Valerdina Manhonga pertence à segunda categoria.
A sua história começa em Lichinga, no Niassa, onde se destacou como uma menina que não gostou de brincar às bonecas.
“Primeiro, dou graças a Deus. Acho que sempre temos de dar graças a Deus pela nossa origem, pelo lugar onde nascemos. Sou filha de pai maconde e mãe ndau e nasci em Lichinga. Sou uma nortenha, posso assim dizer. Tenho muito orgulho. Toda a gente diz que é uma cidade difícil de se habituar, mas tenho grandes memórias e grandes recordações, porque lá foi a minha base.”
Enquanto muitas meninas brincavam à casinha, Valerdina queria acompanhar o irmão mais velho a jogar futebol, berlindes e até mesmo a caçar passarinhos.
“Como cresci no meio de rapazes, as brincadeiras de meninas nunca me cativaram tanto. Tenho um irmão mais velho, o Binho, que sempre foi uma pessoa muito dinâmica. Se fosse jogar futebol, eu queria estar com ele. Se fosse caçar passarinhos, eu queria estar com ele. Se fosse jogar berlinde, idem. De vez em quando ainda jogava uma matakozana, aquelas brincadeiras femininas, mas sempre tive aquela adrenalina de querer aprender e gostar de estar com os meninos.”
Hoje acredita que aquela infância lhe moldou muito mais do que a personalidade. Moldou-lhe uma liderança.
“Fazer estes jogos com os meninos ensinou-me a trabalhar em equipa. Apesar das diferenças, quando eles tinham um objectivo comum, treinavam para o conseguir. Nós, meninas, por vezes temos mais birras. Eu noto essa diferença até hoje.”






















