Em qualquer recanto do planeta, há sempre espaço para um cabo-verdiano. O arquipélago vulcânico das dez ilhas espalhadas pelo imenso Atlântico, exporta há séculos uma alma nómada que se instalou em todos os continentes, exaltada pela “Diva dos Pés Descalços”, Cesária Évora, Ildo Lobo, Bana, Tito Paris, Leonel Almeida entre outros. Moçambique, terra “Maning Nice”, acolhe quatrocentos registados no consulado desde 2012. Agora, estima-se que perto de dois mil deles estão espalhados pelo país. A comunidade cresceu, enraizou e multiplicou-se em gerações.
Nesta madrugada, quando os “Tubarões Azuis” entrarem no Estádio Hard Rock Stadium de Miami para defrontar o Uruguai não serão apenas onze jogadores em campo. Levarão consigo a vigília de milhares de almas que, entre a cachupa e a crença inabalável, transformarão as noites de Junho em memória colectiva, do mundo e dos falantes da língua portuguesa em particular.
Moçambicanos, angolanos, guineenses — os PALOP sem representação no torneio adoptaram os “Tubarões Azuis” como seus. “Muitos dizem que também se sentem representados por Cabo Verde”, conta Carlos, emigrante que tem Moçambique como o seu novo lar. “Isso dá ainda mais significado a este momento histórico”. Emerson sentiu o mesmo. “Percebemos um forte apoio de moçambicanos que assistiam ao jogo e contamos com eles. Sentimo-nos bastante abraçados”
A rivalidade saudável existe — Neuza recorda o jogo entre Cabo Verde e Moçambique no CAN de 2024 como “o momento mais complicado” —, mas neste Mundial prevalece a solidariedade. Cabo Verde é o único representante africano de língua portuguesa no torneio, e essa responsabilidade transformou-se em orgulho partilhado.
CACHUPA, BANDEIRAS E A FAMÍLIA LUSÓFONA
Esta segunda-feira, o desafio muda de feição. Os “Tubarões Azuis” saíram do embate com a Espanha “mais confiantes”, nas palavras de Emerson. Mas a humildade é conselho unânime.
Neuza pede “pés bem assentes na terra”. Carlos espera “um jogo muito difícil”, embora acredite que a coragem e a organização da equipa podem “surpreender novamente”. Emerson mantém a fé. “Acreditamos na qualificação para a fase seguinte”.
Nas casas, nos lounges, nos restaurantes a comunidade espera reunir-se. O horário — uma da madrugada em Maputo — não intimida quem já está habituado a viver entre fusos horários e saudades.
Neuza Matos, filha de pai cabo-verdiano e mãe moçambicana, viveu a noite em grupo. “Quando ouvimos o hino nacional e vimos a nossa bandeira estendida no relvado, não conseguimos conter as lágrimas”, recorda. Para ela, que nasceu em Pemba, mas cresceu nas ilhas, o momento foi “a confirmação de que este pequeno país continua a conquistar o reconhecimento que merece”.
Carlos Inocêncio Silva, há cerca de um ano em Maputo com a mulher e duas filhas, assistiu num lounge da cidade, “rodeado por um grande grupo de cabo-verdianos”. O coração, admite, esteve “na mão” desde o primeiro minuto. “Ver a bandeira de Cabo Verde exaltada no maior palco do futebol mundial, a fazer história, é algo que me emociona profundamente”.
Emerson, descendente de cabo-verdianos que já se sente parte da comunidade, espera ver o jogo em comunidade, e descreve a noite de estreia como “bastante emotiva, cheia de crenças. Foi um momento ímpar ver a selecção empatar diante da Espanha, uma selecção bastante forte e com grande histórico no futebol”.

Sou cabo-verdiana e moçambicana
NEUZA MATOS
Residente em Maputo desde 1989 Neuza Matos nasceu em Pemba. É filha de mãe moçambicana e pai cabo-verdiano. Cresceu e estudou em Cabo Verde.
Neuza acompanha os “Tubarões Azuis” desde a qualificação histórica para o CAN de 2013. Esteve no Soccer City, em Joanesburgo, na estreia contra a África do Sul. Treze anos depois, a emoção repetiu-se, desta vez num lounge de Maputo.
“Quando ouvimos o hino nacional e vimos a nossa bandeira estendida no relvado, não conseguimos conter as lágrimas. Foi um momento de orgulho imenso”.
Para Neuza, que vive entre duas pátrias, o momento foi mais do que desportivo. Foi a confirmação de que um pequeno país pode conquistar o reconhecimento mundial.
“Sou cabo-verdiana e moçambicana. Ver a minha bandeira na Copa do Mundo foi a confirmação de que este pequeno país continua a conquistar o reconhecimento que merece”.
A qualificação para o Mundial ultrapassou tudo o que imaginava. Trouxe alegria, orgulho, mas também apreensão. A Espanha era um adversário temível.
“Se artistas como Cesária Évora e Tito Paris levaram o nome de Cabo Verde aos quatro cantos do mundo, os Tubarões Azuis deram agora uma nova dimensão a essa visibilidade”.
Neuza espera que o país aproveite a exposição para atrair turistas e investimento. Para ela, este Mundial é uma montra para tudo o que Cabo Verde representa.
“Este Mundial é muito mais do que futebol; é uma montra para Cabo Verde e para tudo aquilo que representa”.
Cabo Verde que tem coragem
CARLOS INOCÊNCIO SILVA

Carlos acompanhou o jogo num lounge da cidade, rodeado por cabo-verdianos. A apreensão foi constante, mas a fé nunca faltou.”Desde os primeiros minutos, estava com o coração na mão. Mas a fé nos jogadores nunca faltou, assim como a esperança de alcançar um bom resultado”.
“Ver a bandeira de Cabo Verde exaltada no maior palco do futebol mundial, a fazer história, é algo que me emociona profundamente”.
A comunidade reúne-se regularmente na associação, mas também nos lares, entre cachupadas e convívio. Para o jogo de segunda-feira, o plano já está traçado.
O apoio dos moçambicanos surpreendeu-o. Muitos sentem-se representados pelos “Tubarões Azuis”. “Muitos dizem que também se sentem representados por Cabo Verde nesta Copa, como parte da grande família dos PALOP. Isso dá ainda mais significado a este momento”.
Carlos espera um jogo difícil contra o Uruguai, mas acredita na surpresa. “Cabo Verde já mostrou que tem coragem, organização e capacidade para competir neste nível”.
Para os jovens nascidos em Moçambique, deixa uma mensagem de orgulho e esperança. “Este Mundial mostra que Cabo Verde pode estar nos grandes palcos do mundo. É uma mensagem de orgulho, identidade e esperança”.
Acreditamos na qualificação
EMERSON

Emerson vive a cultura cabo-verdiana no dia-a-dia e é descendente de cabo-verdianos, residente em Maputo. O jogo contra a Espanha foi, para ele, uma noite de crença colectiva.
“Foi um momento ímpar ver a selecção empatar diante da Espanha, uma equipa bastante forte e com grande histórico no futebol. Foi uma noite bastante emotiva, cheia de crenças”.
A comunidade tem encontrado na sede da associação, mas o horário da madrugada complica a logística.
O apoio dos moçambicanos no dia do jogo não passou despercebido. “Percebemos no dia do jogo um forte apoio de moçambicanos. Sentimo-nos bastante abraçados”.
Contra o Uruguai, a confiança é maior depois do empate com a Espanha. “Cabo Verde saiu do jogo contra a Espanha mais confiante. Acreditamos na qualificação para a fase seguinte”.
Para Emerson, este Mundial é sobretudo uma oportunidade de mostrar Cabo Verde ao mundo.
“Através do futebol, o país torna-se mais conhecido e propicia o crescimento do turismo, pela curiosidade despertada deste pequeno grande país, de belas e maravilhosas ilhas”.

