“Ontem, frente ao Gabão, os ‘Mambas’ reescreveram a história e na quarta-feira, diante dos Camarões, estamos na esperança de que continuem a nos fazer sonhar mais alto, até porque provaram que é possível”.
Os mais velhos e experientes têm dito que há vitórias que valem mais do que três pontos, e jogos que não cabem apenas nas estatísticas dos aficcionados. A vitória de Moçambique ontem, em Agadir, diante do Gabão, encaixa-se na categoria dos momentos que mudam a história, curam feridas antigas (12 derrotas em 16 jogos) e devolvem dignidade a um povo que já havia normalizado perder em CAN.
Ontem (28 de Dezembro de 2025), ao cabo de 17 jogos desde a estreia no Egipto (1986), a Selecção Nacional conquistou a sua primeira vitória de sempre numa fase final do CAN. O principal responsável pela façanha é Chiquinho Conde, o “dito cujo”, figura incontornável do futebol moçambicano, que ganhou esse apelido na época em que era a estrela-mor dos “Mambas”. Tempos em que o país esperava que ele aterrasse no Aeroporto de Mavalane para acreditar que a selecção poderia ganhar.
O grupo comandado por Chiquinho Conde demonstrou ontem que foi ao CAN de Marrocos não apenas para competir e ganhar experiência, mas, sim, para reescrever a história depois das desilusões passadas.
Diante de uma Selecção do Gabão, comandada por Pierre-Emerick Aubameyang, teoricamente superior - melhor posicionada no “ranking” da FIFA e com vantagem clara no histórico de confrontos directos - os “Mambas” mostraram algo que durante décadas lhes foi negado ou nunca foi tão claro como ontem: autoridade competitiva, a mesma que já haviam deixado transparecer na estreia diante da campeã Costa do Marfim, apesar da derrota (1-0). Desta vez, porém, o detalhe esteve do nosso lado.
Moçambique, que em dois momentos teve dois golos de vantagem- 2-0 e depois 3-1 - soube sofrer quando foi preciso. Ernan “queimou” o tempo que conseguiu, mas a equipa nunca se encolheu.
No seu todo, os 15 utilizados jogaram com personalidade, e Chiquinho Conde leu bem os momentos do jogo e acreditou até ao fim. Ainda que nós, como adeptos, não concordássemos com algumas mexidas feitas, sobretudo no “timing”, o resultado ficou bem conseguido e a fase a eliminar está à espreita.
Sob a liderança de Chiquinho, que outrora foi nossa principal referência como jogador, surge uma nova geração que começa a assumir responsabilidades acrescidas, sendo de destacar Geny Catamo, considerado homem do jogo de ontem e que simboliza a transição do comando que era de Dominguez - titular e determinante no lance da grande penalidade convertida pelo jogador do Sporting de Portugal.
Celebrámos esta vitória como se fosse uma qualificação para os oitavos-de-final, porque, emocionalmente, ela já é. No final da segunda jornada, Moçambique é uma das três melhores terceiras classificadas com três pontos, tal como Benin, pelo Grupo “D”, e Sudão, pelo “E”, os outros terceiros somam dois (Zâmbia Grupo “A”), com um ponto estão (Angola, Grupo “B”, e Tanzania, no “C”, o que reforça a sensação de que o sonho é possível.
Apesar de ainda estarmos no campo dos “ses”, já que falta uma jornada, há uma certeza inabalável: já vencemos algo maior - o medo de competir - e a história está a ser reescrita não apenas pelos resultados, mas pela forma como se devolveu o orgulho, a crença e a identidade aos “Mambas”, que, no último dia do ano (quarta-feira), podem defrontar Camarões já com um lugar nos oitavos-de-final.
Nesta fase do ano, em que o país precisava de um motivo para sorrir, os “Mambas” deram mais do que uma vitória. Deram-nos a sensação rara de que o “dito cujo” chegou, como fazia na década de 1990, para dar esperança ao povo sedente de vitórias a este nível. Ontem, mais do que esperança, os “Mambas”, que ele comanda, reescreveram a história e, na quarta-feira, esperamos que continuem a nos fazer sonhar mais alto, provando que é possível.

