Sabemos qual foi a tua maior frustração: nunca teres entrevistado aquele que para si é o maior astro do futebol mundial, Armando Diego Maradona. Disseste-o vezes sem conta, com aquele vigor e aquela vibração que só te caracterizam: “No dia em que eu entrevistar o Maradona deixo de trabalhar”. Deixaste claro que tal façanha seria o auge da tua carreira — que, a partir daí, nada mais faria sentido no jornalismo. Continuarias a levar a vida como os outros mortais.
Isso não teria acontecido se o teu chefe, na companhia têxtil da Alemanha — lá para onde foste “exilar” em Oschatz entre 1987 e 1990, na tua aventura de Madjerman — não tivesse recusado o pedido que lhe fizeste para trocar de turno com um colega. Tudo para poderes assistir ao jogo entre o Lokomotive Leipzig e o Nápoles, a equipa de Maradona, em partida da primeira “mão” da Taça UEFA, decorria o ano de 1988. Raios, o seu chefe disse-te um redondo “nein” (não), até porque ele sabia que querias assistir o propalado jogo. Trabalhaste transtornado e com o coração apertado. Bolas, afinal estavas a 30 minutos de viagem da “tua” cidade para Leipzig. Passaste-te, que até te apetecia dar-lhe nos cornos!
Lamentávamos a tua desilusão, mas vibrávamos com o teu entusiasmo e com a forma apaixonante como te entregavas ao trabalho e às causas que abraçavas. Este foi apenas um dos incontáveis episódios que o teu baú de mais de três décadas de jornalismo guarda. Vibrámos sempre com as tuas estórias e toda a vez que falavas da “seita maradoniana”.
Sou um puto de sorte por partilhar o mesmo espaço que tu e por beber directamente da fonte. Sou grato aos teus professores, àqueles que, sem te dares por isso, te incutiram o gene de “escriba” e, seguramente, estariam orgulhosos do homem que te tornaste.
Não fosse o professor Francisco Moiane, o Tukufa Palucha, como era conhecido na antiga Irmãos Maristas — hoje Escola Secundária da Maxaquene —, talvez nunca te tivesse conhecido. Lembro-me que contaste em uma das nossas tertúlias que foi ele quem te despertou o gosto pela leitura em 1978, nas bermas da Avenida Craveiro Lopes (Acordos de Lusaka actualmente), onde nasceste, cresceste e passaste boa parte da adolescência. Nessa fase trocavas livros com a malta do bairro — um grupo selecto — e girava em roda a “Colecção Vampiro”, com clássicos como da Agatha Christie (a tua favorita), “Seis Balas” e histórias do faroeste. Forjava-se um escriba em silêncio, num meio incomum.
Sim, lapidava-se uma jóia. Nesse mesmo ano mudaste-te para a populosa e conturbada Polana-Caniço “B”, mais precisamente na zona do Ka Mukoreano. Já na década de 80, no então Liceu Nacional Salazar (hoje Escola Secundária Josina Machel), uma professora de Português, a Manuela, usou uma composição tua como texto de preparação para as provas trimestrais. Gostava das tuas habilidades, a tal ponto que simulou, na turma, uma redacção na qual tu eras o chefe — na oitava classe. Seguramente já pressentia em ti um jornalista.
Mas, antes disso, foste ajudante do mestre Tinga, como soldador, um ofício que você aprendeu na oficina do seu primo na Fundição Moçambicana, no Tlavana, agora Aeroporto. Até podias te ter tornado um soldador como o Ivo Tavares, mas desde o dia em que o painel que pingavam, numa dessas lojas dos Mabanianes, próximo ao Holing, quase caía sobre ti, zarpaste e nunca mais foste visto com o mestre Tinga. Passaste pela Fábrica de Valores Postais dos Correios de Moçambique, seguiu-se a fase de revisor na Sociedade do Notícias, antes de concorrer nas vagas abertas para jornalistas. E daí para cá o jornalismo foi o teu porto seguro e continua sendo.
Sou grato por te conhecer, por teres sido um dos meus mentores, por teres sido tu a cuidar de mim nos primeiros passos desta profissão. Lembro-me perfeitamente da vez que me acolheste sob o teu tecto durante uma semana, enquanto cursava o nível básico para treinadores de futebol no Campo 1º de Maio. Não tinha dinheiro para o transporte diário entre a Matola e Maputo. Alimentaste-me, vestiste-me e, acima de tudo, ensinaste-me — ainda verde — a desenvolver as qualidades de um profissional. Sempre dizias: “O repórter deve ter uma memória fotográfica”.
Aprendi com a tua capacidade única e peculiar de fazer descrições fiéis, carregadas de realismo — de pessoas, de épocas — de forma brilhante e detalhista, mesmo sem eu as ter vivido. Continuo a aprender com as tuas ricas experiências. Aprendi a conhecer todos eles sem os ter visto a jogar, a correr, a nadar. Tu desenhavas os rostos com palavras, e eles ficavam para sempre. Sim, sou testemunha ocular disso desde o primeiro dia em que conheci o homem, o profissional e o ser humano incrível que és, Reginaldo Cumbana.
Quero também dizer-te: não te preocupes. Guardo na minha falível memória os segredos das nossas aventuras da vida devassa que só terminavam ao raiar do sol, rotos e ressacados. Confesso que não tenho saudades. Lembro-me da viagem quase falhada a Tete para cobrir o Moçambola, quando embarcaste no avião sem um cêntimo no bolso — na noite anterior, embriagámo-nos e perdemos completamente o discernimento e o dinheiro do bolso… eu era puto, mas tu tornavas-te miúdo quando o uísque te subia à cabeça e quando simplesmente seguias-me cegamente como um “touro” para o matadouro. Éramos felizes e irresponsáveis nas horas vagas.
Raios, hoje termina um ciclo por imposição da lei. Mas sinto na pele o alcance das palavras de Paulo, quando escreveu em I Coríntios 1 12:26: “Se um membro sofre, todos os outros membros sofrem com ele; se um membro é glorificado, todos os outros membros se alegram com ele.” desafio sofre, eu sofro com o desmembramento de uma das suas preciosas unidades em campo, tal como aconteceu com a saída abrupta do Almiro Santos, o Justino, e Custódio Mugabe… “cobardes”, tal como descreveu Salvador!
Mas ainda tens uma missão: ser o fiel guardião das memórias de rostos — alguns que estão de rastos, outros nem por isso.
As gerações vindouras precisam de pessoas como tu, Txova Boy.
Hoje vais à reforma, triste por não teres entrevistado o Maradona, não teres desenhado o último “Rosto”, mas só eu sei o legado que deixas em mim, aos meus colegas e ao jornalismo desportivo.
Com quem ficarão os “Rostos”, ó Regy?
Que os dias ociosos da tua reforma não te roubem a alegria. E não pares de enviar para a malta uns caracteres do “Rostos & Rastos” e, já agora, umas laudas do “Retrovisor”. Sabes bem que por vezes ficamos à rasca. Sei que fazes isso com uma pata levantada, em dois tempos.
Lembra-te: temos um jornal por fechar. Esse é o teu deadline!
Já agora – citando o Apóstolo Paulo – Combateste Um Bom Combate… E A Coroa Está Contigo, Txova Boy!
























