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CLUBES DEVEM OLHAR PARA AFROTAÇAS COMO UMA MONTRA

Os últimos dois fins-de-semana ficaram marcados pela presença das equipas moçambicanas nas competições africanas, nomeadamente a União Desportiva do Songo e a Black Bulls.

O Songo, que lutava pela presença na Fase de Grupos da Liga dos Campeões Africanos, foi eliminado, sem surpresa, pelo poderoso Petro Atlético de Luanda, o maior clube do futebol angolano. Depois de perder (0-1) no Estádio Nacional do Zimpeto, na primeira “mão”, os campeões nacionais foram a Luanda rubricar uma exibição de alto nível e empataram a duas bolas.

Já a Black Bulls, que luta pela Fase de Grupos da Taça CAF, ainda está vivo e no sábado afastou o Atomic Ngomé, das Comores, numa eliminatória totalmente disputada no Tchumene. O agregado foi de 1-0, obtido no primeiro jogo, já que o segundo terminou sem golos.

Em outras palavras, Moçambique segue amputado, isto é, com apenas uma equipa nas Afrotaças 2026/27.

Mas, mais do que eliminação ou transição para a fase seguinte ou mesmo para os grupos e por aí fora, as Afrotaças funcionam como aquilo que em economia se chama mercado de capitais. Nestas provas, o capital é o jogador que é exposto a outros e, muita das vezes, melhores mercados.

Nos últimos anos, a Black Bulls tem sido o único clube moçambicano que encara as Afrotaças com toda a responsabilidade que se requer. Primeiro, representar condignamente o país, depois obter ganhos desportivos e económicos, via premiação e venda de activos, os jogadores.

Por falar de ganhos com a premiação, vale lembrar que a CAF oferece 100 mil dólares pela presença na fase preliminar, valor que serve para custear as despesas logísticas. Atravessada a fase preliminar, quem chega à Fase de Grupos da Liga dos Campeões encaixe 700 mil dólares, cerca de 50 milhões de meticais.

Já quem atinge a Fase de Grupos da Taça CAF tem 400 mil dólares, cerca de 30 milhões de meticais. São verbas que para a realidade africana e moçambicana, em particular, fazem muita diferença, pena que muitos dos nossos clubes ainda não se tenham apercebido disso.

Porém, a explicação para o desinvestimento pelas Afrotaças por parte da maioria dos nossos clubes tem que ver com a sua natureza. Na sua maioria pertencem a empresas públicas, por isso as respectivas direcções nunca se preocupam com fontes alternativas de renda, pois há sempre uma vaca leiteira, a empresa que mete incondicionalmente o dinheiro.

Com a Black Bulls a história é diferente, por ser um clube privado, onde os resultados são, de forma indirecta, também fontes de renda. Quem entende melhor essas coisas de mercado, sabe que nenhuma marca gosta de se associar a um perdedor.

Fora isso, a Black Bulls já começou a ter ganhos indirectos ou colaterais pela sua constante presença em África. Primeiro, é cada vez mais conhecido no continente e, quando é assim, se torna atractivo para jogadores estrangeiros (africanos) que precisa para as suas fileiras.

O segundo ponto é expor os seus próprios jogadores ao mercado. Moctar Diallo, Chamboco, Ernan e Nené geraram encaixes, recentemente, ao emblema do Tchumene, após serem contratados por clubes marroquinos, ruandês e líbio.

Os que estão no actual plantel certamente que estão a ser observados, como o foram Cantolo e Fernandinho, ora na Arábia Saudita.

Infelizmente, a equipa do Tchumene é a única que trabalha com olhos postos no mercado e outros ficam a ver “navios”.

Uma coisa é certa, em África há mercado para jogadores e treinadores. É muito mercado ainda incipiente, mas que já começou a gerar frutos.

Nos últimos anos, assistimos a uma grande romaria de jogadores e treinadores da África subsaariana para clubes da África do Norte, geralmente, os mais organizados, competitivos e poderosos financeiramente.

Antes da ilusão de vender para Europa, que viremos as atenções para África, pois aqui há transacções que até cobrem orçamentos de alguns clubes que sabem formar e vender.

Tudo isto, ou seja, para se entrar nesse mercado, tem um ponto de partida: a presença regular nas Afrotaças, como o fazem o Al-Ahly, Al-Masry, Pyramids, Zamalek (Egipto), Wydad Casablanca, Raja, Berkane (Marrocos), Esperance, Etoile du Sahel (Tunísia), Sundowns, Orlando Pirates (África do Sul), TP Mazembe, AS Vita Club (RD Congo), Young Africans e Simba (Tanzania) ou Al Hilal (Sudão).

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