Jornal Desafio
Home » NÃO FOI POR FALTA DE AVISO
OPINIÃO

NÃO FOI POR FALTA DE AVISO

Queira o destino que o Maxaquene se salve da despromoção, atendendo que matematicamente esta ainda é possível. Daqui em diante está proibido de perder a maioria dos pontos em disputa ou correrá riscos de voltar a quedar-se.

Como é sabido, hoje o Maxaquene não tem campo para acolher os seus jogos. Não conta com os sócios/patrocinadores. Faltam salários, como também o essencial para o funcionamento do clube. Jogou na Black Bulls e os sócios ou adeptos acharam que era melhor passar para o Costa do Sol e nada mudou.

Neste momento, o Maxaquene está preso por arames e será difícil, embora não impossível, conseguir manter-se. Apresenta-se como equipa com mais troca de treinadores. Lembrar que começou com Jamal, substituído por Dário e agora está com Casimiro, e fica a pergunta: afinal onde reside o problema? Provavelmente não sejam os treinadores.

Quando a euforia de regressar ao Moçambola iniciou, avisei a algumas pessoas próximas à direcção e outras com alguma influência no clube, referindo que antes dessa ideia era necessário criar as mínimas condições para se aguentar.

A minha sugestão era que o clube se organizasse melhor, sobretudo procurando parceria para ter um campo para acolher os jogos, que, por outro lado, seria uma das fontes de receitas. Também se podiam rentabilizar as partes adjacentes ao recinto.

Fui ignorado e alimentou-se a narrativa de que individualidades e empresas iriam aproximar-se ao clube para apoiar ao ascender ao Moçambola. Debalde. Hoje, prova-se que ninguém está em condições de entrar em investimentos sem possibilidade de retorno.

Faz lembrar que a minha passagem como dirigente deste clube, pelo qual nutro simpatia desde os tempos que se chamava e vestia-se a Sporting. Mas, recorde-se, entrei para o clube num momento, se calhar, mais difícil que o actual, em termos de apoios.

Recebíamos do nosso sócio/patrocinador (Linhas Aéreas de Moçambique) apenas 55 mil meticais. Este valor era destinado ao salário dos trabalhadores. Estou a falar de funcionários; aqueles que garantiam que as portas do clube estivessem abertas todos os dias. Também tínhamos o apoio dos Aeroportos de Moçambique, que se destinavam a apoiar as modalidades de salão, nomeadamente basquetebol e andebol.

Nessa altura, o futebol, que se chamava de profissional, sobrevivia à base da venda de Gonçalves Fumo, ao Sporting Clube de Portugal, e também de algum dinheiro recebido do Orlando Pirates pela transferência de Paulo Macamo (Macamito) e Hélder Cuinica. O exercício de gestão era feito pelo amigo António Costa, que não poupava esforços para acrescentar, do bolso, valores para que o clube estivesse de pé (aliás, sei que até hoje devem-lhe dinheiro).

O clube teve a sorte de, num período não muito distante, negociar o Paito, novamente para o Sporting, e respirou-se de alívio.

A astúcia na gestão disfarçou as insuficiências. Mantivemos os jogadores fulcrais e ainda conseguimos contratar unidades que começavam a despontar. Aliciámos algumas com o financiamento à formação académica. Dessa vantagem, uns aproveitaram e deram-se bem, como foram os casos de Salvador Macamo, António Gravata (Tony), Eugénio Bila (Genito).

Para suprir algumas necessidades no ataque, recebemos do Costa do Sol o empréstimo de Amisse Barros e Arnaldo Ouana, em final de carreira, que se juntaram a Amide e Galibo. A miscelânea foi frutífera. O Maxaquene teve períodos fantásticos e até uma Taça de Moçambique conquistada, troféu que minimiza o estrago de um “roubo” de um campeonato protagonizado pelo Ferroviário de Maputo, no “caso Frederico”.

Nessa altura, mais do que um clube, éramos uma família e, embora tivéssemos, como nos dias que correm, inimigos internos, contornámos as dificuldades.

O clube tinha a vantagem de ter o campo de futebol em condições, que acolhia os jogos caseiros e treinos. Lembrar que até demo-nos ao luxo de acolher o Costa do Sol, no período em que foi vítima das cheias de 2000.

De um passado recente a esta parte, parece que tudo piorou, embora com patrocínios mais altos, mas sem a venda de jogadores para o estrangeiro. 

Levantei esta lembrança para mostrar as diferenças daquele e do tempo presente. Mas, é preciso salientar que o grande Maxaquene foi sempre alvo de uma série de acções maléficas. O negócio da venda do campo pode ter iniciado com o declínio do clube, mas também houve um episódio, que não me esqueço. Uma empresa de telefonia móvel cedeu 600 mil meticais para ajudar na colocação de iluminação no campo de futebol, mas esse dinheiro não ficou nas contas do clube. O cheque foi parar na conta de uma empresa (prefiro não revelar) e desapareceu, de vez.

Perante isto tudo, pergunto: por quantas mais situações tem passado este centenário que o levam a estar cada vez mais minimizado e delapidado?

Termino enviado um abraço ao pessoal que tem impulsionado o basquetebol “tricolor”. E, por hoje, nada mais direi.

Artigos relacionados:

Carregando....