A semana passada ficou negativamente marcada e manchada pelas vergonhosas cenas de violência que aconteceram no campo do Ferroviário de Nacala, no jogo em que a equipa da casa recebeu a Black Bulls pela 15.a jornada do Campeonato Nacional de Futebol-Moçambola-2026.
Naquilo que parecia mais uma tarde de futebol, como muitas outras, virou num dos maiores pesadelos para os artistas da bola pelo menos nos últimos anos.
Os adeptos da equipa da casa partiram para a violência, tendo forçado duas interrupções do jogo, a última dos quais na segunda metade, definitiva.
Pedras, garrafas, fisgas e outros objectos contundentes foram atirados ao relvado, tendo ferido alguns jogadores, sobretudo os da equipa da casa.
Imagens de video amador que nos chegaram de Nacala são simplesmente arrepiantes, com jogadores a fugirem do campo em debandada na tentativa de se salvar de uma chuva de pedras que vinha da bancada central sombra, onde alguns adeptos nacalenses estavam munidos de fisgas e com alvos bem-definidos.
Pouco antes da interrupção definitiva do jogo, aos 88 minutos, o campo estava literalmente cheio de pedras vindas das bancadas, num jogo em que a segurança não foi tida e nem achada pelos organizadores.
Havia pouquíssima Polícia, talvez meia-dúzia de homens importantes e sem qualquer intervenção para dissuadir os zaragateiros, deixando a desordem ganhar contornos vergonhosos e lamentáveis, algo que só tem paralelo no futebol do bairro.
Em jeito de colocar a carroça em frente dos bois, o Ferroviário de Nacala ainda fez um comunicado lacónico no qual só assume a culpa entre linhas e de forma inusitada puxou a responsabilidade de toda aquela barbárie, que se prolongou até à zona do túnel de acesso aos balneários com agressões físicas aos elementos da Black Bulls, aos adeptos do rival local, Desportivo de Nacala.
O Ferroviário tomou, por outro lado, a medida de, doravante, interditar o acesso a esses adeptos do Desportivo de Nacala e promete, por outro lado, melhorar a segurança do seu campo, duplicando o número de agentes da polícia em casa, para além de apertar na revista dos espectadores.
Poucos dias depois, o Conselho de Disciplina (CD) da Liga Moçambicana de Futebol (LMF) anunciou os castigos e, para não variar, brandos para a dimensão dos estragos feitos, sobretudo reputacionais para o futebol nacional.
Cinco jogos à porta fechada para o Ferroviário de Nacala e uma multa pecuniária de 10 mil meticais. Castigo leve que está longe de ser dissuasivo.
Entendemos que o castigo é leve porque nada justifica aquela barbárie, aquele espectáculo gratuito e que só deita por terra todos os esforços que estão a ser empreendidos para a realização do Moçambola, uma prova que tem custado muito dinheiro ao nosso Estado e parceiros.
Em nossa opinião, os cinco jogos de castigo seriam em terreno neutro, longe de Nacala e sem adeptos. Para grandes males, há que se aplicar grandes remédios. Aplicar 10 mil meticais de multa para uma instituição como Ferroviário de Nacala é o mesmo que afugentar um cão atirando-lhe osso.
É que,o que aconteceu em Nacala, mais do que um simples acto de violência, foram cenas reveladoras do crime de ódio. Os adeptos “locomotivas”, mais do que cometerem actos de vandalismo, agiram como terroristas, como gente da selva, transformando o campo que seria um lugar de amizade, solidariedade, intercâmbio, “fair-play”, harmonia e convívio são em palco de terror.
Urge a adopção de medidas mais contundentes contra os crimes que têm sido cometidos pelos adeptos nos nossos recintos desportivos, através do aprimoramento das sanções e actualização das multas pecuniárias que são, quanto a nós, mais persuasivos do que dissuasivos.
Alias, Nacala foi três dias depois de outras cenas provocadas pelos adeptos do Baía de Pemba, depois do nulo na recepção ao Maxaquene.
Coincidência ou não, quer o jogo de Pemba, quer o de Nacala, foram ajuizados pela mesma equipa de arbitragem.
Violência nunca pode ser uma solução para um problema e também nunca pode ser um recurso, como tem acontecido recorrentemente nos nossos campos, sobretudo mais a Norte do rio Zambeze.

