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OPINIÃO

COMUNICAÇÃO PRECISA-SE

Sinto-me orgulhoso de ter atingido a fase da vida em que “não vou pela cantiga da rã ou do sapo”. Já posso ouvir, analisar, sem permitir que o barulho dos aplausos me faça inclinar para o lado da maioria.

É um exercício dificílimo, sobretudo quando se vive uma era em que o “poder popular” comanda as regras ou que algumas convicções possam ter custos elevados à vida. Mas, graças a Deus, mantenho-me fiel aos meus princípios, custe o que custar.

Esta introdução, que considero revestida de maturidade, vem a propósito da primeira e excelente palestra organizada por ocasião dos 40 anos do jornal desafio que se assinala a 24 de Junho do próximo ano. Convidámos o seleccionador nacional, Francisco Queriol Conde Júnior, que o futebol e os próximos preferem tratá-lo simplesmente por Chiquinho.

Este momento fez lembrar (por vezes esquecemos) que por mais forte que achamos ser, haverá sempre algo a mexer connosco e a provar o que realmente somos: sensíveis.

O nosso palestrante, que muito significa para o desafio, por ter sido a primeira capa do nosso jornal cerca de 39 anos depois, esteve num frente-a-frente com os jornalistas para, entre outros assuntos, narrar a sua história e trazer a sua experiência, e foi exactamente quando falou da sua infância que se emocionou e lutou consigo mesmo para que não deixasse rolar as lágrimas, que pareciam tão próximas, sobretudo recordando-se do seu falecido irmão, Orlando, para mim, o melhor Conde, e um dos melhores avançados que Moçambique conheceu, cuja projecção foi interrompida aos verdes 22 anos de idade por motivos de doença.  

Orlando e os outros seus irmãos futebolistas (Felizardo, Geraldo e Elcídio) tiveram a sua mão naquilo que mais tarde aconteceu com aquele que viria a ser o último Conde da dinastia, a mostrar qualidade de exaltar o mundo do futebol desde o seu Ferroviário da Beira, onde jogou basquetebol, praticou atletismo e futebol, modalidade que o projectou, despertando ao senhor Dino, que o levou para o Palmeiras da Beira, servindo de trampolim para o Maxaquene, via aberta para o profissionalismo, a partir do Belenenses, passando pelo Sporting de Braga, Vitória de Setúbal, Sporting Clube de Portugal, seu clube de coração, New England Revolution, Tamba Bay, Alverca, Créteil e Imortal.

A narração de Chiquinho sobre o seu lado de profissional de futebol também emocionou-me. Recuei no tempo e recordei aquele contacto que um dia tivemos no antigo Estádio da Machava, em 1984, na bancada central sol, depois deste evitar o túnel de acesso aos balneários, após um jogo seu pelo Ferroviário da Beira. Aquele dia foi o primeiro dos vários que tivemos até aos dias que correm, antes na casa do seu mano, Geraldo, e depois por outras paragens das nossas profissões.

Lembrei-me do Chiquinho a chegar ao Maxaquene como das vicissitudes vividas por um garoto da província que viajou à capital convicto de que ia singrar no profissionalismo. E Chiquinho conseguiu mesmo realizar o seu sonho de infância, que transporta deste a zona do Esturro, na cidade da Beira: jogar pelo Sporting de Portugal, embora, num tal período, as convocatórias à Selecção Nacional tivessem sido o vector principal para que não chegasse a ser um jogador de referência em Alvalade por muitos e longos anos.

E na última parte da palestra, Chiquinho retratou o seu lado de treinador, depois de ter falhado na Faculdade de Direito, quando passava pela sua cabeça ser ministro do desporto.

Como não podia deixar de ser, Chiquinho abordou o seu momento na Selecção Nacional e foi aí que o “caldo se entornou”. Veio o intervalo da “lei da rolha” imposta pela Federação Moçambicana de Futebol (FMF) ao técnico, que viu na oportunidade a ocasião para falar sobre tudo que estava na alma e em directo, pelo menos para a Rádio Moçambique, nossa digníssima parceira.

Evidenciou-se a ausência de comunicação entre a FMF e Chiquinho Conde, ou simplesmente não há espaço para as partes coordenarem sobre o essencial para o bem da selecção, situação que deploro.

É que, para mim, o seleccionador deve ter espaço ou condições para acompanhar os jogos do Campeonato Nacional, assim como de qualquer região onde haja jogadores seleccionáveis. A pergunta que faltou da minha parte e não me lembro de alguém ter feito - até porque só houve espaço para quatro intervenções-, é se existe um plano para ver os tais jogos. Quero acreditar que existe. E se não existe, devia ser feito. Existindo, sem estar a ser implementado, algo está a falhar.

Sobre o ponto das naturalizações, Chiquinho Conde sempre defendeu que não se deve naturalizar por naturalizar. As descobertas deviam passar por aprovação técnica, o que até facilitaria a integração destas na equipa.

Portanto, as partes devem encontrar uma forma de convivência sã para o desenvolvimento e sucesso do trabalho da Selecção Nacional, que é a equipa de todos nós, sem esquecer de expurgar os egos.

Vale lembrar que ninguém está acima dos interesses da pátria.

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