Os casos de falsificação de idades entre os atletas das delegações que tomaram parte do XVI Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares, ontem encerrado na província de Inhambane, foram, seguramente, um dos aspectos negativos de maior relevo deste evento.
Da “Terra da Boa Gente” não chegaram boas notícias a respeito e com, até à última sexta-feira, pelo menos 31 casos confirmados pelas autoridades da Educação, envolvendo atletas que tinham idades que variavam entre os 18 e 21 anos de idade.
Na verdade, a faixa etária admissível para o evento vai de 11 a 16 anos, o que significa que qualquer atleta acima dessa idade, que tomasse parte no evento, estaria a incorrer em uma irregularidade.
De facto, quando descobertos, esses atletas foram prontamente afastados do evento.
Situações de falsificação de idades foram detectados nas delegações das província de Gaza, que viu, inclusive, afastada toda a sua equipa masculina de voleibol, Sofala, Manica, Zambézia, Cabo Delgado e a anfitriã Inhambane.
Ora, tenho cá para mim que estes casos de falsificação de idades são a face visível de um problema maior que enferma a Educação Física Escolar no país, mormente a falta de um propósito claro para o qual existe como disciplina curricular e prática no Sistema Nacional de Ensino. A Educação Física foi concebida para desempenhar uma dupla função. Um epistemológico, de ensino da ciência e cultura desportiva, introduzindo nos estudantes conhecimentos sobre a prática ou actividade desportiva, para lhes dotar de uma cultura desportiva que permita que possam ser cidadãos capazes de usufruir dos fenómenos desportivos enquanto um Direito Fundamental, de cidadania e participação activa na esfera pública.
Ou seja, a Educação Física Escolar tem a missão de munir os cidadãos de conhecimentos e cultura desportiva, para que, por exemplo, saibam interpretar o que estiver a acontecer num jogo de andebol, voleibol, futebol e demais modalidades desportivas, de modo que possam entender e desfrutar do jogo.
É o mesmo que dizer que a Educação Física Escolar prepara os cidadãos para não serem leigos em cultura desportiva.
E porque nem todos os praticantes da Educação Física nas escolas serão atletas de alto rendimento, mas, se devidamente preparados ou dotados em cultura desportiva, serão esses que podem ser dirigentes, médicos, empresários desportivos e muitas outras profissões necessárias para o sucesso da Indústria Desportiva.
Num segundo plano, o desportivo, a Educação Física Escolar é a base da pirâmide do Sistema Nacional de Desporto. Ela detecta, ao nível das escolas, jovens com talento desportivo promissor, prepara-os e oferece um primeiro palco de competição, que são os jogos inter-turmas na própria escola e, acto seguinte, vai subindo para competições ao nível distrital, provincial e nacional. Daqui, os melhores, migram para o desporto de alto rendimento, mormente o federado e profissional.
Portanto, quando estes dois propósitos falham, não tenhamos dúvidas de que outros valores serão considerados e a falsificação das idades, com o propósito único de ganhar jogos, ocupará o lugar de destaque.
Mas há mais.
Estas falsificações só aconteceram porque durante os dois anos que separam um Festival do outro, o Sistema Nacional de Educação não foi capaz de se certificar que estava a ser cumprido um plano de preparação rigorosamente cuidado, que terminaria com a participação da província no Festival de Inhambane.
Em bom rigor, estando-se a trabalhar com o cuidado necessário, dois anos é muito tempo para apresentar atletas com idade máxima de 16 anos tecnicamente dotados, mas que não é o caso.
Continuamos a ver jovens com enormes deficiências técnicas, o que denuncia uma preparação atrasada para estes festivais.
E porque, no fim, todos querem ganhar, ter entre os convocados um adulto é o meio caminho para o efeito.
É preciso recuperar o propósito pelo qual a Educação Física foi concebida.
Se isso acontecer, não tenho dúvidas do quão a sociedade vai ganhar no seu todo.

