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OPINIÃO

O PREÇO DE CONFIAR NA SORTE

Parece que não aprendemos com a tragédia de Olembé.

Quando os Camarões organizaram o CAN de 2022, ninguém imaginava que a 24 de Janeiro desse ano, em pleno Stade Olembé, se viveria uma tragédia que ceifou oito vidas — pessoas pisoteadas — e deixou mais de oitenta feridos, sete deles em estado grave. Estava lá. Testemunhei de perto o horror por que aquela gente passou. Foi um autêntico caos. A equipa anfitriã estava em campo e o desejo de o público apoiar a equipa era maior, mas irracional. Enquanto os “Leões Indomáveis” venciam as Comores, por fora as pessoas morriam!

Milhares de adeptos tentaram forçar a entrada pelo portão Sul, quando o recinto já tinha atingido a lotação. A multidão acumulou-se de forma desordenada, fruto de falhas no controlo de acessos e da investida em massa de quem não tinha bilhete, mas queria ver a selecção anfitriã. Foi triste. A festa africana transformou-se em luto pelos piores motivos. A alguma imprensa chegou a diabolizar e a questionar a capacidade organizativa de África. Nem a imponência do novíssimo estádio evitou que falhas graves de segurança ficassem expostas — e foram precisamente as mesmas que estiveram na origem daquele incidente.

Não me recordo de Olembé por acaso. No passado dia 27 de Setembro, a Arena Lalgy acolheu a final da Taça COSAFA, que opôs Moçambique e a África do Sul. O recinto esteve abarrotado e, curiosamente, a enchente também teve a mão das falhas de segurança: houve quem forçasse a entrada. Por sorte, não tivemos vítimas mortais. Mas houve feridos e danos materiais. E o susto ficou.

O encontro quase chegou a ser interrompido e o reatamento, já na segunda parte, demorou cerca de quarenta minutos. A organização viu-se obrigada a reforçar o dispositivo de segurança e a multiplicar os apelos ao civismo. Correu bem — desta vez. Mas correu bem por pouco. E é exactamente aí que mora o perigo: no hábito de confiar na sorte.

A verdade é que aquela tarde foi um teste à nossa capacidade de organização e à resiliência das nossas infra-estruturas desportivas. Um teste que nos obriga a parar e a pensar. Será que temos recintos à altura das exigências modernas? Teremos planos de segurança capazes de responder quando a emoção tomar conta das bancadas? Ou continuaremos a improvisar, à espera que a tragédia bata noutra porta que não a nossa?

O repto, aliás, já foi lançado ao próprio ministro da Juventude e Desportos, Caifadine Manasse, que reconheceu a necessidade de o país apostar mais nas infra-estruturas. É um reconhecimento importante, mas que não se pode ficar pelas palavras. Precisamos de obra, de planeamento e de recintos que estejam em harmonia com aquilo que o desporto moderno exige — e, sobretudo, que, acima de tude, coloquem a segurança das pessoas.

E não há tempo a perder. Os Jogos da Região 5 da AUSC estão à porta — realizam-se em Dezembro — e vão incorporar o futebol, com as eliminatórias de acesso ao CAN de Sub-17. Ou seja, teremos, novamente, bancadas cheias, emoção à flor da pele e multidões à entrada dos recintos. Organizemo-nos a tempo. O alerta da Lalgy Arena não pode cair em saco roto.

No caso concreto, ficou o aviso, e ficou também a nu a dimensão das nossas carências. E é melhor encará-las agora, com frieza, do que lamentá-las depois, de luto.

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