“Como explicar ao meu filho de seis anos que, enquanto central, o falecido Joaquim João foi melhor do que Mexer Sitoe e Reinildo Mandava juntos, se além de haver pouco registo em vídeo das suas actuações, o país não tem um livro sobre a figura desportiva e até política que foi o grande capitão da Selecção Nacional? Como explicar às actuais gerações que Esperança Sambo foi um caso raro de craque que qualquer tentativa de comparação ofende quem a viu jogar no país e em África, onde, em 2011, foi homenageada pela FIBA-África por ocasião do Jubileu dos 50 anos desta organização continental? Estas perguntas e outras não feitas, estes exemplos apresentados e outros que não me vêm à memória servem apenas para provar a importância singular desta insistência de Miguel Guambe em reduzir em livro os seus conhecimentos, experiências e vivências enquanto treinador e condutor de equipas de basquetebol, equipas de trabalho e homens durante 42 anos de carreira.”
Na quarta-feira, 30 de Abril, o professor de Educação Física e Desporto e treinador de basquetebol Miguel Guambe lançou, sob a chancela da Alcance Editores, o seu segundo livro.
Depois de “Educar e Treinar Basquetebol”, que veio a público em 2017, pela mesma editora, desta vez Miguel Guambe sugere-nos “Orientar Equipas”.
Talvez por nos conhecermos há mais de 30 anos, talvez por ambos termos a mesma paixão pelo basquetebol, talvez porque em alguns anos tive a honra de ser adversário de Guambe enquanto treinador, ele da Académica, e eu da Bela Rosa, em ambas as situações, o “Coach Miguel” fez questão de me convidar para assistir ao lançamento dos seus livros, aos quais respondi com muito prazer e entusiasmo.
Neste seu segundo livro, Miguel Guambe quer provar à sociedade que orientar equipas, entenda-se, de basquetebol ou de qualquer modalidade desportiva, mas mais colectivas, é uma actividade que requer método e regra.
É verdade que Guambe parte da sua perspectiva desportiva e visão de orientação de equipas, mas que fique claro que o método e regras usadas no desporto para orientar equipas são em tudo iguais ou aplicáveis, com as necessárias adaptações, a outras áreas sociais em que há equipas por orientar para atingirem um determinado resultado.
É tremenda esta transposição de uma realidade desportiva para as demais que o técnico nos oferece, provando, mais uma vez, que o desporto não é feito ao acaso.
É deveras extraordinário este contributo de Miguel Guambe não apenas para o desporto moçambicano, mas também para a sociedade no seu todo.
Este seu segundo livro, uma prova de que o primeiro não foi por acaso, afaga um desporto desacreditado, maltratado por quem tinha o dever de o cuidar e reclama, em si, um respeito que, afinal, nunca o demos.
É que para quem anda nos corredores do basquetebol sabe que Miguel Guambe era criticado por, com tantos anos de carreira, ter ganho apenas dois campeonatos nacionais (1999 pela Académica e 2022 pelo Costa do Sol) e uma Taça de Moçambique (2004, novamente pela Académica), mas, agora, percebe-se que a sua dimensão desportiva e humana está para lá do número de títulos ganhos ou finais perdidas.
Este homem quebra uma barreira que teima em fazer parecer que o nosso desporto é rural, retrógrado e sem nada de intelectual para o reclamar na urbana sociedade que devemos ser, feita de valores que seguimos e que são exemplo para outras áreas sociais.
Mas há mais!
Este segundo livro desperta a necessidade de figuras da sua dimensão, alguém com 42 anos de carreira enquanto treinador de basquetebol, e de outras de grandiosidade ainda maior terem que resumir em escrito, em livros, as suas trajectórias desportivas, os seus conhecimentos, vivências, experiências e histórias, para poderem ser lidas pelas próximas gerações.
É penoso perceber o quão pobre é a nossa literatura desportiva, mesmo o país tendo produzido, ao longo de décadas, figuras de dimensão mundial que, ao seu tempo, influenciaram os jovens ou seus contemporâneos, mas que, agora, por não terem escrito ou se ter escrito livros a seu respeito, a sua dimensão histórica desaparece ou desaparece com as suas mortes.
Como explicar ao meu filho de seis anos que, enquanto central, o falecido Joaquim João foi melhor do que Mexer Sitoe e Reinildo Mandava juntos, se além de haver pouco registo em vídeo das suas actuações, o país não tem um livro sobre a figura desportiva e até política que foi o grande capitão da Selecção Nacional?
Como provar que a soma dos actuais guarda-redes dos “Mambas”, nomeadamente Ernan Siluane, Fazito e Ivan Urubal, não é suficiente para ser a metade do que foram os falecidos José Luís e Filipe Chissequere e, ainda, Nuro Americano e Rui Évora?
Como explicar às actuais gerações que Esperança Sambo foi um caso raro de craque que qualquer tentativa de comparação ofende quem a viu jogar no país e em África, onde, em 2011, foi homenageada pela FIBA-África por ocasião do Jubileu dos 50 anos desta organização continental?
Sem nada escrito a respeito, como provar aos actuais jogadores que a medida de excelência de basquetebol, em Moçambique, chama-se Amad Mogne e que Aníbal Manave, Ernesto Júnior, Belmiro Simango, João Paulo Vaz, o falecido João Chirindza e outros da sua geração são príncipes da modalidade?
Será que o valor de Arnaldo Salvado, enquanto treinador, se resume aos 10 títulos de campeão nacional e outros tantos da Taça de Moçambique e Supertaça ganhos cujos troféus alguns podem já estar perdidos ou enferrujados nos clubes por onde passou? Será que Salvado não tem história por contar ou ideias por partilhar que lhe guiaram ao sucesso e que podiam servir a outras áreas sociais, tal como Miguel Guambe nos prova ou propõe agora?
Estas perguntas e outras não feitas, estes exemplos apresentados e outros que não me vêm à memória servem apenas para provar a importância singular desta insistência de Miguel Guambe em reduzir em livro os seus conhecimentos, experiências e vivências enquanto treinador e condutor de equipas de basquetebol, equipas de trabalho e homens durante 42 anos de carreira.
Aliás, a presença, no evento do lançamento do livro, da ministra da Educação e Cultura, Samaria dos Anjos Tovela, parece provar essa necessidade de biografar ou historiar figuras e momentos do nosso desporto para que, na caminhada para o futuro, o país tenha sempre as bases assentes em um passado registado em livros e que possamos consultar e aprender a qualquer momento.
Por isto e tudo mais, reiteramos a nossa admiração e respeito por Miguel Guambe, uma figura que o nosso basquetebol, em particular, e o desporto, no geral, oferece à sociedade como um verdadeiro “coach”, um expert na liderança de equipas de trabalho e condutor de homens cujo exemplo está à disposição de quem quiser usar em Moçambique.

