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Em 2005 a dona Quitéria comprou a primeira camisola 10 para Geny
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DONA QUITÉRIA E O FATINHO QUE PREDESTINOU GEN(Y)O

Em 2023, numa verdadeira romaria de trabalho às origens, a nossa Reportagem deslocou-se à residência da família de Geny, no então bairro Ka Thlavana — hoje Aeroporto — um território fértil de confluência artística e cultural. É neste bairro que se cruzam histórias e legados, sendo também berço de figuras maiores da cultura moçambicana, como o já falecido Malangatana Valente Ngwenya, Lindo Lhongo, o dramaturgo, Alberto Chissano, escultor, Vasco Manhiça, Montaparnasse Negra, Elói Vasco, músico, bem como Azmir, Simbine, Ukheyo, Amós Mawai, Beto Sitói, Bachito, Hambro, Thafu, o poeta Sangare Okapi, Jerry, Dominguez e Naftal Langa. Foi com este último que a família Catamo consolidou fortes laços de amizade desde a sua fixação no bairro.

Nesse mergulho íntimo às raízes, desafio  teve ainda o privilégio de folhear o velho álbum fotográfico da família, guardião silencioso de memórias e afectos, onde se revela um outro lado de Geny: o de um miúdo tranquilo, reservado e comedido, muito antes dos holofotes e das grandes arenas.

Curiosamente, esta história começa muito antes da consagração. Em 2005, quando tinha apenas quatro anos, Geny surge numa fotografia ao lado da mãe, Quitéria Langa, vestindo calções e camisola vermelha, com a inscrição “Itália Football” e o número 10 estampado nos “shorts”. Um detalhe inocente na época, mas hoje carregado de simbolismo. A “camisetinha” italiana que não era apenas um acessório  de adorno no corpinho do rechonchudo Geny, então caçula do casal Quitéria e Cipriano Catoma, progenitores da nova coqueluche do futebol moçambicano.   

Quitéria recorda com ternura. “Fui eu que lhe comprei aquela roupinha. Ele gostava muito. Desde pequeno fazia bolas com panos e plásticos para jogar com os amigos”.
A roupa foi comprada no famoso mercado do Xipamanine, em Maputo, um espaço onde sonhos modestos se cruzam com esperanças grandes. “Ele chorava muito para ter uma roupa de futebol, como os outros meninos. Eu dizia que não havia dinheiro, mas ele insistia tanto que acabei por comprar”, lembra a mãe.

Há um detalhe que hoje ganha outra leitura: a cor, o Vermelho. Em Moçambique, é a cor dominante da bandeira nacional e do equipamento principal dos “Mambas”. A roupa não foi escolhida por simbolismo, mas hoje ganha outro significado. Um detalhe casual que, anos depois, parece se alinhar com o percurso que viria. “Ele gostava muito daquela roupa. Vestia sempre que podia. Ele fazia bolas com plásticos e panos, aqueles “xigufos” que nós conhecemos bem. Jogava com os amigos até escurecer”, lembra-se com um semblante carregado de emoção e nostalgia.

Dona Quitéria lembra também os primeiros sinais de um temperamento competitivo. “Quando começou a treinar no Maxaquene, ainda muito novo, ficava nervoso quando as coisas não corriam bem. Um dia, em casa, acabou por rasgar o sofá com uma lâmina, depois de o pai ter-lhe dado umas “chineladas”, por voltar tarde a casa. Depois chorou muito. Ele amava jogar!” Foi aí que a família percebeu que o futebol não era apenas um passatempo. “Falámos com ele. Dissemos que tinha de estudar, mas que também podíamos apoiá-lo no futebol. Ele aceitou”.

O apoio materno tornou-se base. E o tempo tratou de confirmar o caminho. Aos 18 anos, Geny estreia-se pela selecção e marca. Cresce, afirma-se no Sporting, joga e marca na “Champions”,  assume protagonismo e em fases finais do CAN, apontou golos decisivos, foi eleito “Man of the Match” e afirmou-se como líder da nova geração.

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