Às vezes, os heróis não entram em campo aprumadOs com o equipamento de clubes ou selecções. Alguns ficam a poucos metros da linha lateral, atentos ao jogo, ao ritmo da bola e ao pulsar de um estádio inteiro. São discretos, quase invisíveis, mas carregam nos olhos a mesma chama que move os frenéticos e doentes adeptos da bola indígena. Foi nesse espaço simbólico — entre o sonho e o relvado — que Cleiton Francisco escreveu uma das histórias mais inspiradoras da presença moçambicana na 35.ª edição do Campeonato Africano das Nações (CAN), disputada em Marrocos.
Com apenas 14 anos, Cleiton tornou-se o rosto de milhões de crianças moçambicanas ao ser seleccionado para integrar um grupo restrito de jovens africanos escolhidos para actuar como apanha-bolas oficiais do CAN, no âmbito do projecto Ball Kids Stories. Num torneio que decorreu entre 21 de Dezembro de 2025 e 21 de Janeiro de 2026, coroando o Senegal como campeão africano, o jovem levou Moçambique ao centro da maior festa do futebol continental — não como simples espectador, mas como participante activo de um momento histórico.
Porque, às vezes, o futuro do futebol — e dos sonhos de um país — começa mesmo ali, à beira do relvado, com um jovem atento, uma bola nas mãos e um coração cheio de esperança.
A HISTÓRIA
O primeiro passo desta caminhada nasceu de forma simples, quase despretensiosa. Foi o irmão mais velho quem lhe falou da iniciativa, encontrada nas redes sociais. Na altura, Cleiton confessa que não acreditou totalmente na possibilidade.
“No início não levei muito a sério, porque parecia apenas mais uma coisa das redes sociais”, recorda. Ainda assim, decidiu avançar. “Juntamente com o meu irmão fizemos a inscrição e tive de gravar um vídeo a responder a algumas questões”.
Quando recebeu a confirmação de que havia sido seleccionado para representar Moçambique no CAN, a emoção tomou conta do jovem.
“Foi muito emocionante. Fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo senti um certo receio de decepcionar no meu trabalho”, admite, revelando a maturidade de quem percebe, desde cedo, o peso de carregar um país inteiro no peito.
Em Marrocos, Cleiton passou a integrar o grupo oficial de Ball Kids da prova, convivendo diariamente com jovens de outros países africanos. Para além dos jogos, a experiência incluiu formação, momentos de partilha cultural e contacto directo com a organização de um grande evento internacional.
“Ao chegar ao CAN senti-me feliz e honrado por ter a oportunidade de estar ali, acompanhar os jogos e representar Moçambique”, descreve, com orgulho.
O ponto mais alto da sua participação surgiu na grande final, disputada no Estádio Príncipe Moulay Abdellah, em Rabat, entre o anfitrião Marrocos e o Senegal. Um palco carregado de emoção, tensão e simbolismo. Cleiton esteve ali, à beira do relvado, no jogo mais importante do futebol africano.
“Foi difícil lidar com a pressão da responsabilidade de representar o país na final do CAN”, confessa.
Daquele lugar privilegiado viu o “penalty” falhado por Brahim Díaz, sentiu o silêncio pesado que antecedeu o golo decisivo e viveu intensamente a explosão de emoções após o remate certeiro de Pape, aos 94 minutos, que garantiu o título aos “Leões de Teranga”.
“Não consegui ver perfeitamente o golo, mas ao sentir a emoção dos adeptos do Senegal fiquei emocionado também”, relata.
Mais do que os lances dentro das quatro linhas, Cleiton guarda imagens que dificilmente sairão da memória.
“O momento que ficará marcado é a saída dos adeptos das bancadas para o campo, porque eu estive muito perto disso”, recorda, numa descrição crua da intensidade que envolve o futebol africano.


