A fragilidade das infra-estruturas desportivas em Moçambique, em particular dos campos de futebol, que ficam frequentemente alagados durante o período chuvoso, não pode ser encarada apenas como um assuntopontual. Trata-se, acima de tudo, de uma questão estrutural e sistémica que envolve falhas no planeamento urbano, défice de investimento estratégico, limitações na gestão desportiva e, sobretudo, a ausência de uma visão de longo prazo.
Na cidade de Maputo, vários exemplos ilustraram de forma clara esta realidade, aquando da última intempérie. Os campos do clube Costa do Sol, infra-estruturas associadas ao Desportivo de Maputo, Maxaquene e ao Estrela Vermelha revelam ausência de soluções sustentáveis e podem comprometer não apenas a realização regular de jogos, mas também a qualidade do espectáculo, a segurança dos atletas e a credibilidade das competições.
São recintos de clubes históricos com forte peso simbólico e social, mas que continuam dependentes de estruturas envelhecidas, muitas delas construídas sem critérios modernos de drenagem, manutenção preventiva ou adaptação às condições climáticas locais.
Durante a época chuvosa torna-se recorrente o adiamento de partidas, o cancelamento de treinos e a degradação acelerada dos relvados. No caso específico do Costa do Sol, a acumulação constante de água no campo evidencia problemas sérios de drenagem e de concepção da infra-estrutura, tornando o recinto praticamente impraticável no período chuvoso. Situação semelhante verifica-se nos pavilhões do Desportivo e do Maxaquene, onde a vulnerabilidade estrutural expõe a fragilidade que se repete de ano em ano sem que haja intervenções duradouras.
Este cenário tornou num ciclo vicioso difícil de quebrar. E por conta desses recintos degradados, a possibilidade de reduzir o número de espectadores e de patrocinadoresé maior. Consequentemente, as receitas em dias de jogos diminuem. Com menos recursos financeiros, a capacidade de investir em manutenção ou reabilitação torna-se ainda mais limitada, acelerando a degradação das infra-estruturas. O problema deixa, assim, de ser apenas físico e passa a ter impactos económicos, desportivos e sociais.
Problematizar esta questão exige ir além da explicação simplista de que “chove muito e os campos alagam”. A pergunta central é outra: por que razão décadas depois as mesmas infra-estruturas continuam vulneráveis aos mesmos problemas. E a resposta é clara: ausência de um plano consistente para o desenvolvimento e a modernização das infra-estruturas desportivas. Muitas intervenções realizadas ao longo do tempo são pontuais,feitas apenas quando a situação se torna crítica.
Em contraste com este panorama, o Complexo da Black Bulls, assim como da Liga Desportiva, ou do recintopertencente ao Mahafil, demonstram que é possível resistir às intempéries. Este facto resultado deplaneamento; investimento criterioso e gestão profissionalizada. Nesses campos, mesmo em períodos de chuva intensa, há condições para treinos e jogos. Estesexemplos mostram que o problema é evitável.
As soluções dispendiosas são alcançáveis. A requalificação dos sistemas de drenagem nos campos é o primeiro passo a ser tomado, incluindo a instalação de drenos subterrâneos, a correcção da inclinação do terreno e o uso de camadas de base apropriadas. Relvados naturais podem ter bom desempenho mesmo em climas chuvosos, desde que sejam bem concebidos e correctamente mantidos.
Em determinados contextos, a introdução de relvados híbridos ou sintéticos de qualidade pode ser uma alternativa viável, sobretudo em campos de uso intensivo.
Igualmente, fundamental é a manutenção contínua, muitas vezes negligenciada. Construir ou reabilitar infra-estruturas sem garantir equipas técnicas qualificadas, orçamentos regulares e planos de manutenção é condená-las à rápida degradação. Mais do que o montante investido, o verdadeiro diferencial está na visão estratégica de encarar o futebol como um projecto de infra-estruturas integrado numa política mais ampla de desenvolvimento desportivo.
Reconhecer a fragilidade actual das infra-estruturas é o primeiro passo para superar o problema. A solução não passa por esperar que a chuva pare, mas por construir infra-estruturas capazes de conviver com ela.



