O Desportivo da Matola averbou, na tarde de ontem, a segunda falta de comparência num intervalo de três dias e sem ter que sair da sua própria cidade, onde deveriam acontecer os jogos diante do Ferroviário de Lichinga e da Associação Black Bulls, um na qualidade de anfitrião e outro como visitante, respectivamente.
Antes, porém, o Desportivo da Matola havia forçado o adiamento do jogo diante do Textáfrica do Chimoio, que o faria na qualidade de visitante. Nesse jogo, no passado mês de Setembro, os atletas não aceitaram viajar a Chimoio na data marcada, protestando a falta de pagamento de salários.
Na altura, a Liga Moçambicana de Futebol (LMF), na qualidade de organizadora da competição, intercedeu junto da Direcção do Desportivo da Matola para que a equipa viajasse a Chimoio. Acto seguinte, entrou em contacto com o Textáfrica para, em defesa do bom nome do Moçambola, abdicar do direito de ganhar por falta de comparência e realizar o jogo no dia seguinte, o que aconteceu.
Agora, o mesmo Desportivo da Matola protagoniza uma situação a todos os níveis caricata, que é de perder os dois jogos na sua própria cidade, um dos quais na qualidade de anfitrião.
Sem campo próprio, na quinta-feira a equipa viu a Liga Desportiva, dona do campo que usa, a negar-lhe abrir as portas por, até onde se sabe e não se desconfia da veracidade dos factos, ter uma dívida acumulada.
Aqui chegados, a situação pela qual está a passar o Desportivo da Matola, trazendo consigo um sem fim de consequências negativas para a credibilidade do Moçambola e, até certo ponto, do país no seu todo, leva-nos a lembrar da necessidade de implementar medidas urgentes para proteger a indústria do futebol nacional.
Se o Moçambola quiser ser tratado como uma competição profissional a todos os níveis, é urgente que a LMF, enquanto gestora da competição, e a própria Federação Moçambicana de Futebol (FMF), na qualidade de órgão máximo do futebol nacional, reunam esforços para, de uma vez por todas, deixar claro que jogar no Campeonato Nacional da I Divisão é matéria reservada a quem tem uma perspectiva de rendimento desportivo, mas também económico financeiro.
Para tanto, a FMF e a LMF devem fixar que critérios deve respeitar um clube que se qualifica, desportivamente, para o Moçambola para, acto seguinte, poder ser eceite.
Desde logo, o critério económico financeiro é um deles.
A FMF e LMF devem fixar por norma que sem um plano de negócios que prove quanto o clube vai encaixar com as vendas que terá enquanto estiver no Moçambola vai, em sentido contrário, suportar as suas despesas de participação no Campeonato Nacional da I Divisão.
É que, até aqui, muitos são os clubes que se qualificam para o Moçambola e depois vão aos governos provinciais e municipais chorar para que estes suportem as suas despesas.
Se até aqui essa estratégia funcionou, se é que algum dia funcionou, a crise actual do Desportivo da Matola, do Textáfrica e de um e outro clube que não recebe fundos de empresas do sector empresarial do Estado para pagar as suas despesas, prova que esse modelo de financiamento esgotou.
Agora, é hora dos clubes se portarem como empresas que geram dinheiro para pagar as suas próprias despesas.
É que, quando ouvimos e vemos pelo mundo fora que os clubes são autênticas empresas é porque, de facto, assim acontece em termos de sua gestão.
Assim sendo, cabe à FMF e à LMF, antes de mais, munir os gestores dos clubes de capacidade para saberem transformar as suas organizações em empresas, os jogos em produto que se vende, os adeptos em clientes e as cidades e províncias que representam em seu principal mercado.
Se tal acontecer, a breve trecho, crises como estas, do Desportivo da Matola, do Textáfrica, dos relegados a segundo plano do futebol nacional, designadamente Desportivo de Maputo, Maxaquene, Textáfrica do Chimoio, Benfica e Sporting de Nampula e tantos outros que tanta falta fazem ao futebol moçambicano, em particular, e ao desporto, no geral, vão passar para a história.
Esta crise é, por isso e no meu ponto de vista, uma grande oportunidada para a FMF e a LMF lembrarem que ainda há muito trabalho a fazer no sentido de capacitar os gestores a transformar os actuais deficitários clubes em empresas lucrativas,
porque temos todos de aprender com esta crise e, como resultado desse aprendizado, evitar que ela se repita não somente com o Desportivo da Matola, mas com qualquer clube moçambicano.


