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Henrique Aly — jornalista desportivo
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AS VOZES QUE NARRAM: SOU UM JORNALISTA SEM FRONTEIRAS

Há duas décadas que Henrique Aly vive e trabalha na África do Sul. É uma das vozes que, através da SuperSport Máximo, leva o futebol sul-africano aos lusófonos. A sua perspectiva é a de quem vive a realidade de perto, mas de quem também a filtra.

“Vivo e trabalho, felizmente, há 20 anos na África do Sul, e nunca fui alvo destas manifestações, como elas têm sido reportadas e como são difundidas através dos meios de comunicação social. Eu e muitos outros moçambicanos e estrangeiros de outras nacionalidades temos o privilégio de morar em centros urbanos e não tanto na periferia, que é onde mais se registam esses casos. Infelizmente, os nossos irmãos e cidadãos africanos de outras nacionalidades que aqui estão e vivem em zonas periféricas, em ambientes habitacionais mais vulneráveis e de maior carência, são os que estão mais sujeitos a essa pressão e a essa violência”, relata Aly.

O discurso, segundo o jornalista, é cíclico e implacável. “O tom das ameaças é o mesmo, a severidade com que os manifestantes ou os protestantes se referem aos estrangeiros é sempre de forma muito depreciativa e muito pejorativa. Não posso dizer que agora esteja pior do que estava há cinco ou dez anos. É igual, é exactamente igual. A única coisa que acontece é que, porventura, temos hoje cada vez mais meios a difundirem estes fenómenos e há cada vez mais pessoas expostas a esta realidade, mas não mudou nada. A violência é a mesma, a carga de ódio que esse discurso transporta é a mesma”, lamenta.

Sobre o papel da comunicação social, Aly é categórico: “A imprensa tem feito um papel muito importante de aconselhamento de informação e de luta contra a desinformação. Mas sabemos que estes fenómenos sociais são como uma bola de neve. Quando tudo isto acaba por ter respaldo numa condição social da maioria dos sul-africanos que não é favorável, e pode-se olhar para o estrangeiro para acusá-lo de estar a roubar oportunidades ao local, é claro que a bola de neve não para de rolar. Por muito que a comunicação social faça o seu papel e tente desencorajar este tipo de atitudes, a verdade é que enquanto o povo não sentir que está suficientemente satisfeito ou ressarcido nas suas reivindicações, dificilmente isto vai parar sem uma mão pesada e firme das autoridades sul-africanas”.

A sua identidade profissional? “Sou mesmo um jornalista africano sem fronteiras”, afirma com orgulho, embora não esconda as barreiras institucionais: “O meu primeiro pedido de visto de trabalho demorou quase dois anos a ser processado, porque existe uma política na África do Sul de total bloqueio à entrada de profissionais de outras origens. Existe uma segregação levada a cabo pelas autoridades. Ninguém esconde aqui na África do Sul que o estrangeiro é indesejado”.

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