Por: ALEXANDRE ZANDAMELA
É 25 de Setembro. Feriado Nacional. Moçambique, com menos oito horas em relação a Sidney, acorda sob o “coc-coc” das botas firmes e passos cadenciados das Forças Armadas, que festejam o seu dia já longe do metralhar das armas. Respira-se paz e em paz. O povo também festeja e vive o acontecimento com euforia.
Todavia, guarda “o melhor” para mais logo, olhos fixos na televisão, respiração suspensa e a avidez de, pela primeira vez, ver a sua bandeira “ganhar uma voz própria”, à semelhança da longa e ditosa noite de 25 de Junho de 1975, coincidentemente, também num recinto desportivo, o Estádio da Machava.
Em Sidney, o Estádio Olímpico, tal como todos os outros dias, carrega nas suas bancadas mais de 80 mil pessoas idas de todos os cantos do mundo. Num dia de grandes finais, o silêncio que antecede a explosão de emoções é quase físico e a distância entre o impossível e o provável poderá se resumir a meros segundos tácticos, de inspiração e de galhardia, perante todo um povo, a cerca de dez mil quilómetros de distância, orando incessantemente pela sua glória e clamando pela sua fé.
Eu, jornalista e na minha primeira e hercúlea missão de cobrir o maior evento desportivo do mundo, sinto que o primado da minha função é informar – e fazê-lo desapaixonadamente, contudo, a correnteza épica do momento e, acima de tudo, o ensejo de poder viver e contar aos meus concidadãos, com todos os detalhes, essa epopeia da nossa moçambicanidade é mais forte.
O estádio respira comigo. Abraça-me. Trago no corpo uma “t-shirt” com as cores da nossa bandeira e a irrefutável inscrição, em inglês, “Mozambique”. E ter a Lurdes Mutola ali na pista, na grande final dos 800 metros e como super-favorita, engrandece a minha alma e eleva a minha auto-estima.
As bancadas estão coloridas. Cada espectador veste a cor da sua pátria como se fosse uma pele. Eu estou de vermelho. E, à medida que a prova se aproxima, entre palmas que são o estandarte religioso de apoio e incentivo aos atletas, o batimento dos corações da multidão sobe de tom e soma-se aos batimentos dos próprios atletas na pista.
A cada segundo que se arrasta, a ansiedade vai-se transformando numa espécie de fé táctica: sei que o mundo está nos olhando e que a minha crónica vai carregar esse olhar para casa, para Moçambique e para quem ficou diante da televisão ou sintonizou o rádio com o ouvido pregado na esperança.


