Manuel Kambala, o “Lord” de Limpopo, como é tratado na Terra do Rand, é o único jogador moçambicano que ainda resiste na primeira liga sul-africana. Fora do relvado, a África do Sul, que o acolheu como herói em 2019 — quando marcou o golo que salvou o Baroka FC da iminente descida de divisão — é a mesma que este ano queima lojas de estrangeiros e os expulsa à força. O médio-defensivo do Polokwane City sabe que o futebol é um antídoto, mas também sabe que o mesmo só funciona durante 90 minutos.
Morreu Nélson Mandela e, com ele, morreu parte de um sonho. Tata Madiba, o arquitecto da reconciliação, usou o desporto para curar feridas que o “Apartheid” abriu. O “Mundial” de 2010, o CAN de 1996, o râguebi de 1995 — tudo isso foi Mandela a dizer ao mundo que a África do Sul era outra. Que o ódio tinha perdido. Que o “Ubuntu”, aquela filosofia de “eu sou porque nós somos”, era mais forte que qualquer preconceito.
“O desporto tem poder para mudar o mundo. Poder para unir as pessoas, como poucas coisas conseguem”, disse ele, numa frase que hoje ecoa num cínico e ensurdecedor vazio!
Porque Mandela morreu, mas o ódio não, na cidade balnear de Durban e Joanesburgo, em Maio de 2026, grupos armados invadiram bairros em busca de estrangeiros. Machetes, pedras e fogo posto. A taxa de desemprego que bate nos 32,7 por cento é o bode expiatório.
O propalado “Ubuntu” dissolve-se a cada ano que passa. “Respeito. cortesia, partilha, comunidade, generosidade, confiança, desprendimento, tudo isso é o espírito de ‘Ubuntu’”, disse Mandela numa entrevista televisiva. Hoje, essas palavras parecem escritas noutro planeta.
Dirk Louw, Doutor em Filosofia Africana pela Universidade de Stellenbosch, explica: “De ‘Ubuntu’ as pessoas devem saber que o mundo não é uma ilha: ‘Eu sou porque nós somos’. Eu sou humano, e a natureza humana implica compaixão, partilha, respeito e empatia”.
Empatia. Essa palavra que falta nas ruas de algumas cidades sul-africanas, e que no futebol resiste ainda — apenas dentro das quatro linhas.
O “Lord” de Limpopo escolheu o silêncio como arma. Não fala de xenofobia nos microfones. Não usa a sua visibilidade para causas políticas. Protege a família. Joga futebol.

