Sem desprimor para com outras modalidades, o boxe tem sido, nos últimos anos, uma autêntica bóia de salvação do desporto moçambicano no plano internacional, registando quase sempre medalhas e lugares decentes em todas as provas em que tem feito parte.
A glória do boxe inclui competições de cariz regional, continental e mundial, pelo que esta modalidade conquistou, com todo mérito, o seu espaço no desporto moçambicano e nos corações dos seus amantes, que outrora apenas cingiam-se nas disciplinas tradicionais, como futebol, basquetebol ou atletismo.
O facto é que decorrem neste momento os Jogos da Commonwealth, em Glasgow, a maior metrópole da Escócia, um evento que é uma espécie de Jogos Olímpicos em miniatura, reservado para atletas de países anglófonos, ou seja, Grã-Bretanha e suas antigas colónias, mas que Moçambique (qual intruso!) tem tradicionalmente feito parte, apesar de não ser um uma nação de língua oficial inglesa, muito menos ex-colónia britânica.
Para esta edição o país havia planificado se fazer representar por 10 atletas, nas modalidades de judo, natação, atletismo e boxe, a tal esperança de alguma medalha, sabido que os restantes vão à Escócia apenas para ver a paisagem da imensa cidade de Glasgow.
Só que, contra todas as expectativas, na última quinta-feira o país desportivo foi surpreendido com a notícia segundo a qual Moçambique não participaria do torneio de boxe dos Jogos da Commonwealth e, segundo o esclarecimento lacónico do Comité Olímpico (COM), entidade responsável por movimentos desta natureza, a razão é o facto de os quatro pugilistas que estavam na delegação não terem feito, atempadamente, os testes de sexo, condição indispensável para a admissão dos atletas nestes jogos.
Ora, o mesmo COM acrescenta que em Moçambique não existe um laboratório certificado para a realização deste tipo de exames, pelo que estes foram feitos em Portugal, sendo que a clínica contratada para o efeito disponibilizou os resultados tardiamente, o que resultou na exclusão dos nossos pugilistas do torneio de boxe, nomeadamente Manuel Banguine (55kg) e Armando Sigaúque (60kg), Alcinda dos Santos (70kg) e Rady Gramane (75kg).
Da explicação do COM está mais que claro que alguém não cumpriu cabalmente ou com a devida competência a sua missão e para o país fica uma mancha, mais uma, num desporto repleto de episódios de vergonha e instituições inoperantes.
A principal missão de um comité olímpico, em quaisquer que seja o país, é promover modalidades olímpicas, para que de quatro em quatro anos os atletas estejam em condições de competir decentemente nos Jogos Olímpicos ou nos seus torneios qualificativos e outros similares.
A justificação do COM é infundada. É típica de quem quer colocar areia nos olhos do país desportivo, atirando todas as responsabilidades para uma suposta clínica portuguesa contratada para realizar as provas de sexo aos atletas seleccionados.
E, já agora, e porque perguntar não é crime: o COM pode provar que contratou efectivamente uma entidade para a realização dos tais exames?
Se sim, como se chama? Quais eram os prazos combinados para a apresentação dos resultados? Os valores envolvidos? E ainda agora, quais são as penalizaçōes perante o incumprimento de uma das partes, já que, neste caso, em concreto, há um prejuízo reputacional, moral e institucional para o próprio COM, assim como para Moçambique, como país, no geral, que se veem manchados por este episódio?
Se o COM responder cabalmente estas questões fica “absolvida”, mas por agora não temos rodeios em afirmar que este organismo foi irresponsável no tratamento de uma matéria importante e sensível, não sendo obra do acaso a decisão do comité organizador dos Jogos.
Moçambique teve a sorte de logo na I República ter sido dirigido por um presidente disciplinador e que, dentre várias icónicas que teve, a frase que é mais reproduzida e é consensual advoga que: “A vitória prepara-se, a vitória prepara-se”.
Ora, o COM não se preparou devidamente e muito menos se organizou para a vitória, pelo que, sem o boxe, sem Manuel Banguine, Armando Sigaúque, Rady Gramane e Alcinda dos Santos, a delegação moçambicana vai a Glasgow apenas para turismo!
Com todo o respeito que nutrimos e temos para com os restantes seis atletas que nos vão representar, pensar em alguma medalha em Glasgow é, no mínimo, exigir demais. É desafiar a lógica, ou seja, é ser insensato.
E… mais não disse!
























