Depois de no ano passado o Campeonato Nacional de Futebol, Moçambola-2025, ter sido abruptamente terminado faltando três jornadas por disputar, isto devido à falta de fundos, a Liga Moçambicana de Futebol (LMF), gestora da prova, já veio a terreiro admitir a mudança do modelo competitivo.
A mudança de ideias por parte dos gestores da LMF, sobretudo do seu presidente, Alberto Simango Jr., que sempre se revelou irredutível quando o assunto é adoptar um modelo alternativo ao implementado há pouco menos de 25 anos, é um sinal claro de que contra factos não há argumentos.
Simango sempre acreditou cegamente que com maiores e menores dificuldades o sistema clássico de todos-contra-todos em duas voltas era para manter, pois é mais competitivo e factor de unidade nacional, pelo que modelos alternativos podiam esperar.
Mas 2025 foi um ano atípico, do ponto de vista socioeconómico e político para o país, com muitas empresas, algumas delas porto seguro do Moçambola, a ressentirem-se na “caixa”. Outras mudaram de gestores e de paradigmas.
É aí onde entram as Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), a companhia que garante o transporte das equipas do Moçambola. Antes, esse transporte era feito a preços bonificados e à crédito, mas agora é pré-pagamento. Aliás, diz-se que é pagou, viajou!
Quando no início de 2025 a LAM começou a implementar novas políticas de negócio rumo à sua almejada rentabilidade e viabilidade económica, Simango e seus mais directos colaboradores na LMF não se aperceberam de que os ventos de mudança já se faziam sentir e tentaram remar contra a maré, algo sempre perigoso.
Depois de duas jornadas, o Moçambola-2025, que só começou em Maio, parou! Houve demarches, continuou até à quinta jornada, com mais um ponto de paragem.
É porque era finais de Junho e início de Julho, período em que normalmente decorre o Torneio do COSAFA, justificou-se a paragem com os compromissos da Selecção Nacional e lá se “queimou” um mês sem Moçambola.
Só que depois da participação dos “Mambas” nessa prova, o Moçambola não arrancou logo. Houve uma pequena paragem por questões logísticas (dinheiro das passagens aéreas).
Aparentemente resolvidas estas questões, a LMF anunciou que havia conseguido solucionar o problema e que já havia condições para a prova ir até ao fim.
Fez-se mais 10 jornadas ou pouco menos que isso na maior tranquilidade, mas o que se seguiu foi desolador. Por falta de fundos para passagens aéreas houve uma série de adiamento de jogos e marcação de partidas de clubes da mesma região, província ou cidade, contornando-se desta forma o transporte aéreo.
Era o Moçambola “Regional”, com jogos desalinhados e quase todos os dias, o que só embaraçava os clubes, para além de aumentar custos operacionais.
Pouco depois, já em Outubro, Simango anunciava o fim dos “Regionais” para se regressar a um Moçambola verdadeiramente nacional.
Mais duas ou três jornadas tranquilas e nova crise. Para disfarçar, retomaram os “Regionais”, como quem tapa o sol com a peneira, mas depois a máscara caiu. Havia um défice de 25 milhões para terminar o Moçambola. Faltavam três jornadas, ou seja, 21 jogos e mais alguns em atraso, sobretudo do Desportivo de Nacala.
Sem alternativas, a LMF deu, no início de Dezembro, por terminado o Moçambola, transformando a classificação de 23 jornadas em classificação final, com a União Desportiva do Songo campeã nacional, Desportivos de Nacala, da Matola e Textáfrica, como despromovidos.
Dias depois, os clubes forçosamente despromovidos, nomeadamente o Desportivo de Nacala e o Textáfrica (que matematicamente ainda podiam sobreviver) vieram a terreiro queixarem-se de injustiça, ou seja, que era ilegal a sua despromoção.
Em jeito de recuo tácito, a LMF, em conferência de Imprensa, em finais de Dezembro, veio admitir a adopção do modelo regional e a inclusão desses dois clubes no Moçambola-2026, que teria 18 participantes, seis por cada um das três regiões do país.
Ora, a LMF, como Liga de Clubes, deve sentar-se com os seus associados e discutir a melhor saída.
Todos querem o modelo tradicional de todos-contra-todos em duas voltas, mas está mais que claro que sem dinheiro, sobretudo para o avião, nem vale a pena correr-se mais um risco de vexame, como foi em 2025.
Admite-se o modelo regional, mas há um porém: muitos clubes são de opinião que é uma alternativa pouco competitiva e menos atractiva, capaz de até desmotivar os jogadores, para além de arrastar os clubes para o desinvestimento.
Clubes mais competitivos e até candidatos ao título, como União Desportiva do Songo, Black Bulls, Ferroviário da Beira ou Ferroviário de Nampula, correm o risco de até não se defrontarem num ano inteiro. Custos? O modelo regional, do ponto de vista dos clubes, seria mais oneroso, mas pouparia muito esforço financeiro para a LMF.
Seja qual for a deliberação final dos “stakeholder”, o que se pretende é que se adopte um modelo que seja mais vantajoso para todas as partes e em todas as vertentes, pois em nada vale termos um figurino barato, mas pouco competitivo.


