Jornal Desafio
Home » MOÇAMBIQUE TRAZ LIÇÕES DO SAL
REPORTAGEM

MOÇAMBIQUE TRAZ LIÇÕES DO SAL

Durante três dias, a Ilha do Sal, em Cabo Verde, foi a capital do futebol africano. De 7 a 9 de Outubro, a Conferência Estratégica da CAF juntou dirigentes, seleccionadores e especialistas das 54 associações do continente à volta de uma pergunta incómoda: como transformar o melhor “Mundial” de sempre de África num projecto que leve, um dia, uma selecção africana a erguer a taça do mundo. Moçambique esteve lá, representado pelo presidente da Federação Moçambicana de Futebol (FMF) e 5.º vice-presidente da CAF, Feizal Sidat, e pelos seleccionadores Chiquinho Conde, da equipa principal, e Luís Guerreiro, dos Sub-17.

Sem rodeios, o presidente da CAF, Patrice Motsepe, não quis ouvir falar de boas intenções. “Há um grande fosso entre bons planos, boas intenções e aquilo que fazemos na prática, em investimento e resultados. Somos julgados pelos resultados”, avisou. E foi mais longe: “temos de ganhar o “Mundial”. Vamos ganhar o “Mundial”. Uma das nações de África vai ganhar o ‘Mundial’”. 

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, lembrou o salto dado.

Para Chiquinho Conde, o balanço é, sobretudo, técnico. O seleccionador explica que o primeiro dia foi reservado aos presidentes das federações e que os treinadores só entraram em cena mais tarde, mas garante que saiu de lá com apontamentos. “Hoje, nos vários debates, falou-se da aposta nos treinadores africanos, cada vez mais evidente, como foram os casos de Marrocos, Senegal, Costa do Marfim e Cabo Verde, com prestações fantásticas”, conta.

As equipas técnicas têm de ser multidisciplinares.

O ponto alto, para si, foi o estudo apresentado pelo grupo de treinadores liderado por Arsène Wenger. “Chegou-se à conclusão de que era necessário mais ousadia, acreditar e trabalhar nas situações em que fomos menos dominantes”, resume.

As selecções africanas, nota, jogaram quase sempre num bloco baixo, à espera do contra-ataque. Agora o desafio é ganhar capacidade para controlar o jogo com bola. “A outra situação importante foi o estudo da transição ataque-defesa, no tempo que temos para recuperar a posse. Isso é predominante nas equipas europeias e traduz uma vantagem competitiva”.

Conde ficou ainda com um alerta que ultrapassa as linhas do campo. Os golos sofridos nos minutos finais, recorrentes nas equipas africanas, não são apenas uma questão táctica. “O Wenger falou da emoção e do cuidado de gerir os aspectos motivacionais dos atletas, porque a emoção muitas vezes trai-nos na tomada de decisão”, afirma. Daí a sua insistência: as equipas técnicas têm de ser multidisciplinares, da nutrição à gestão do esforço. “O presidente da CAF alertou os presidentes das federações para apostar nos treinadores, dar-lhes ferramentas e acreditar no seu trabalho”.

A história de Cabo Verde, o anfitrião, serviu de espelho. Conde recorda que o antigo seleccionador cabo-verdiano participou por videoconferência e falou de metas e confiança. “Cabo Verde tem uma cultura evolutiva no seu processo. Teve treinadores portugueses, do Rui Águas ao João de Deus, e foi construindo o seu percurso até ao ‘Mundial’”, observa. País pequeno e de emigrantes, soube recrutar e acreditar: “Com ideias simples, conseguiram fazer um Campeonato do Mundo excepcional.” Fica, porém, uma preocupação que diz respeito a todos: o fim do CHAN pela CAF reduz o espaço para os jogadores formados dentro de casa. “Corremos o risco de ter selecções com atletas maioritariamente formados no estrangeiro, sem grande identidade da realidade do futebol africano”.

Artigos relacionados:

Carregando....