O bairro Nkobe, no município da Matola, tornou-se um dos alvos preferidos das piadas e das sátiras que circulam na internet. Nas redes sociais, a fama humorística pegou: memes e troças sarcásticas pintam-no, de forma exagerada, como um lugar parado no tempo e distante do resto do mundo. É a caricatura fácil que se repete sem olhar para dentro.
Mas, longe desses rótulos, o nosso olhar foi mais fundo — e encontrou pérolas escondidas naquele chão. Um (A)lírio. Uma delas chama-se Alírio Cuna Júnior, eleito melhor jogador da Taça COSAFA Sub-20, o torneio que apurou para o Campeonato Africano das Nações (CAN) de 2027, e segundo melhor marcador da prova, com cinco golos. Obra!
Totalista nos cinco jogos, Alírio foi também distinguido como melhor em campo por duas vezes na fase de grupos, integrando o onze ideal dessa etapa e do torneio, escolhidos pelo Grupo de Estudos Técnicos (TSG) — um júri que juntou lendas do futebol africano, como o sul-africano Mark Fish e o antigo capitão dos “Mambas” Tico-Tico.
É um talento que carrega, no sangue, a mesma resiliência de quem vive em Nkobe e cresce entre desafios. Penúltimo de sete irmãos, extremo de raiz que encaixa com naturalidade na posição 10, foi criado pela mãe. E os olhos brilham quando fala do apoio incondicional dela e das irmãs. É neste ambiente matriarcal que a jovem promessa alimenta os sonhos e encontra o combustível para as suas ambições.
Hoje, o extremo que já veste as camisolas das selecções Sub-20 e Sub-17 figura na lista de pré-convocados para o “Mundial” de Sub-17, no Catar, sendo uma das apostas do seleccionador Luís Guerreiro.

