No auge da sua carreira, quando representava a Selecção Nacional, os burkinabes ficaram encantados com a classe de Carlitos, em Burkina Faso, e apelidaram-no de Patrick Vieira, dadas as similaridades nas movimentações no miolo do terreno com a ex-estrela da Selecção da França. Por isso e algo mais, merece um lugar entre os melhores médios que Moçambique viu nascer.
Teve a honra de vestir as cores da Selecção Nacional por 17 ocasiões. Entrou pela primeira vez convocado pelo técnico Artur Semedo, em 2006. Continuou já sob a batuta do holandês Mart Nooij e só saíu da selecção em 2012. “A minha última convocatória foi contra o Egipto”, recorda o jogador, que a seguir revela a sua maior dor.
“O meu pior momento foi quando Mart Nooij pôs-me fora da lista de convocados finais para o CAN-2010, em Angola, depois de ter feito toda a campanha. Infelizmente, terminei a carreira sem ter o prazer de ir a um CAN. Foi triste”.
Seja com for, o seu palmarés nas equipas por onde passou é cintilante. Conta com uma dobradinha ao serviço do Desportivo de Maputo, em 2006; um campeonato conquistado na Absa “Premier Soccer League”, da África do Sul, com a camisola do Supersport United, em 2007; dois campeonatos pela Liga Muçulmana (2010 e 2011) e uma Taça de Moçambique (2012); e duas Taças de Moçambique no Ferroviário da Beira (2013 e 2014).
É um legado que propiciou dois dedos de conversa com este excelente executante, que ainda representou outras equipas do Moçambola, como o Maxaquene, Ferroviário de Maputo, FC Lichinga, UP Lichinga e Ferroviário de Nacala, onde viria a terminou a carreira, aos 34 anos de idade.
DE RESSANO GARCIA
PARA O DESPORTIVO
O seu registo oficial é Carlos Bernardo Chefo Chimomole. Nasceu a 4 de Abril de 1984, em Massinga, Inhambane, da união entre Bernardo Chefo e Felizmina Jeremias Mahore. “Sou de uma família humilde e a minha irmã mais velha chamava-se Célia. Depois vieram a Carolina, Amaral, Mónica, eu, Narciso, Rabelinda, Analdita, Anuário (falecido), Ivone, Valdimira e, por último, Pechunia.
Apesar de ter nascido em Massinga, Carlitos veio para Maputo com apenas três anos, na companhia de uma irmã. A guerra empurrou-os para a vila fronteiriça de Ressano Garcia, onde viveram com os avós. Nunca mais viveu em Massinga. A sua vida futebolística começa, por isso mesmo, naquela zona, que os nativos tratam-na vulgarmente pelo nome de Gaxa.
Com um campo ao lado da casa, tinha pouco espaço de manobra para não gostar de futebol. Com o evoluir do tempo, já um pouco mais a sério, “disputávamos torneios entre células. Eu pertencia à célula ‘C’, mas também entravam as células ‘B’, ‘F’ e por aí fora. Tinha miúdos com muito talento”.
Em 1997, Carlitos vem a Maputo com uma equipa de Ressano Garcia, a convite de Mussá Ibraimo, da Associação Provincial de Futebol, para um jogo-treino com o Mahafil e começa a cobiça, dadas as qualidades que possuía, mas o facto de não ter familiares na capital impediu que se mudasse com vista a abraçar o futebol federado.
As suas qualidades eram cada vez mais impressionantes, que deixaram o falecido Zacarias (irmão dos futebolistas e agora técnicos Mussá Osman e Nacir) bastante vislumbrado. Zacarias costumava ver Carlitos a espalhar talento na equipa do Sacadura Cabral e elogiava-o bastante.
“Mais tarde organizou-se um Campeonato Provincial de juvenis, com a participação de equipas provenientes da Moamba, Namaacha e ADPP da Machava. Então, nós já éramos do Ferroviário de Ressano Garcia. Fui ganhando maturidade e mais tarde realizou-se o Campeonato Recreativo com equipas como o Ferroviário de Ressano Garcia, Cross Border e outras. Vinham jovens de Maputo, entre eles o Fred, uma das pessoas que me convidou para o Desportivo”.
O Fred falou com o “mister” Tiago Machaísse, pelo que “logo no primeiro dia de treinos mandou-me assinar a ficha. Disse que eu tinha bons pés. No princípio foi difícil. Saia de Ressano para treinar três vezes por semana. Na altura tinha parado de estudar, devido a dificuldades financeiras. O meu pai, que faleceu no ano passado, já não estava a trabalhar. Tinha voltado das minas”.


