ATANÁSIO ZANDAMELA
O atletismo, que ocupa(va) o pódio das ditas modalidades prioritárias do país, finalmente tem uma direcção, com a eleição de Gilberto Gomes, que já recebeu o testemunho para continuar com a estafeta. Foi uma maioria esmagadora (9-1-0) que elegeu o candidato que, desde o primeiro momento, apareceu apoiado pelas associações provinciais.
Assim, depois de um ano consumido por questões burocráticas, desconfianças, disputas e até divisões – como revela o escrutínio com três listas -, chegou a hora de devolver a modalidade às pistas, sejam elas de tartan ou de terra batida.
Saúdo o facto de o elenco liderado por Gilberto Gomes integrar pessoas que, em diferentes momentos, estiveram ligadas ao atletismo, como são os casos de Óscar Carvalho, Francisco Manheche, estes dois já dirigiram a federação, Florência Lumbela, Jaime Rodrigues, Edmundo Matesso, Nélson Nhamussua, Gerson Mechisso, Fernando João, José Cucheza, entre outros.
É certo que acredito e alimento a esperança de que com estes se possa construir uma nova etapa, tendo o atleta no centro das atenções. No entanto, conhecer ou estar ligado à modalidade não basta. É preciso transformar isso em acções concrectas.
Defendo, por isso, que é preciso colocar os interesses do atletismo acima de qualquer diferença pessoal que tenha surgido nos últimos quatro/cinco anos.
É nesse sentido que espero que a nova direcção não transforme as divergências e divisões anteriores em guerras capazes de sufocar ainda aquilo que, quanto a nós, realmente importa: o desenvolvimento de uma modalidade que tantas alegrias deu ao país. Aliás, foi através do atletismo que Moçambique levou o seu nome aos maiores palcos desportivos do mundo, dos Campeonatos Mundiais aos Jogos Olímpicos, passando pelos “meeting’s” e Ligas de Ouro, ganhas por Lurdes Mutola.
Nos últimos anos, testemunhámos inimizades que aprofundaram divisões. A modalidade viu afastarem-se pessoas com peso e experiência, descontentes – não quero discutir se com razão ou não – com o rumo que a federação tomava.
Em função desse momento vivido, recuperar essas pessoas, reconstruir pontes e devolver a confiança aos agentes desportivos e económicos deve ser, quanto a nós, uma das prioridades de quem acaba de receber o testemunho
A eleição “consensual” de Gilberto Gomes deve representar o início de uma reconciliação, e não a consagração de vencedores e vencidos, porque o atletismo já não precisa disso. Precisa é de pessoas comprometidas com o seu desenvolvimento.
E se, de facto, a anterior liderança constituía um obstáculo ao desenvolvimento da modalidade, então, chegou o momento de os novos dirigentes demonstrarem que é possível fazer diferente.
Eu, como outros tantos, quero voltar a ver o atletismo moçambicano na ribalta, mesmo reconhecendo que o caminho será difícil, sobretudo perante as limitações em infra-estruturas, recursos (financeiros e equipamentos) e outras condições consideradas essenciais à prática desportiva em geral.
Diz-se, com frequência, que o atletismo é uma das modalidades mais fáceis de massificar, por permitir a participação de pessoas com diferentes capacidades e condições e por poder ser praticado mesmo nas condições mais adversas. Então, que a nova direcção transforme essa vantagem numa oportunidade real para alargar a base de praticantes, reforçar o trabalho de formação e criar condições para não só descobrir como também lapidar novos talentos que certamente existem em Manica, no Niassa, em Tete e noutros pontos do país.
Reitero que os nove votos obtidos por Gilberto Gomes, num universo de 11 votantes, devem constituir um sinal importante de apoio dos associados.
A confiança recebida não deve dar lugar ao relaxamento por parte do elenco agora eleito, pois quatro anos passam rapidamente. E no final do mandato, quero olhar para trás, encontrar sinais concretos de evolução e poder dizer: a mudança valeu, realmente, a pena.
É claro que não estou e nem vou exigir medalhas de imediato. O que peço são motivos para voltar a acreditar. Quero ver jovens nas pistas um pouco por todo o país, treinadores a trabalhar em melhores condições e talentos a serem identificados e, acima de tudo, devidamente acompanhados.
O atletismo moçambicano tem uma história e merece voltar a alegrar-nos como no passado.
Foi com particular emoção que acompanhei conquistas como as de Lurdes Mutola, Tina da Glória, Leonor Piuza, Elisa e Telma Cossa e Kurt Couto. Também ouvi histórias e conheci, ainda que pouco, os feitos de gerações anteriores, representadas por figuras como Ludovina de Oliveira, Sarifa Magide e até António Repinga, entre tantos outros nomes que ajudaram a construir a identidade da modalidade no país.
São, de facto, boas memórias, mas não quero aceitar que o atletismo viva apenas da memória dos seus grandes nomes. Cabe à nova direcção criar condições para que outras gerações tenham a oportunidade de escrever as suas próprias histórias e daqui a alguns anos sejam também recordadas e referenciadas.
Acredito que ninguém pede medalhas para amanhã. O que realmente se pede, neste momento, são sinais de esperança.
O facto de a eleição ter acontecido no dia (27 de Outubro) do aniversário de Lurdes Mutola , símbolo maior da modalidade, espero que este novo ciclo seja, de facto, um presente não só para a nossa “Menina de Ouro”, mas também para o atletismo moçambicano, que tanto precisa.
Senhor presidente, como amante do atletismo, estarei aqui atento para questioná-lo, felicitá-lo, mas preparado também para me zangar, caso seja necessário.

