Jornal Desafio
BEBEC
Era o futebol na forma pura, do “underground”. (Foto: Arquivo)
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REPORTAGEM

UM SONHO ADORMECIDO CHAMADO BEBEC!

Há 39 anos, o Jornal Desafio nascia. Um ano depois, num fim de tarde agastado no Estádio da Machava, Luís Brito virou-se para Cândido Coelho e perguntou: “Ó Cândido, e se nós deitássemos mão a um torneio só para miúdos?” Era 1988. O país saía de uma guerra fratricida que durou dezasseis anos. E dois homens sonhavam alto. Descreveu desta forma, Renato Caldeira, antigo director do Jornal Desafio e um dos impulsionadores do surgimento do movimento SOBEC, hoje BEBEC, explicando num dos seus manuscritos, como foi idealizado o maior projecto pós-independência de futebol infanto-juvenil. 

Não havia relvado. Não havia chuteiras. Havia apenas campos de terra batida, onde os “putos” de Maputo nas férias jogavam até se fartar. Era o futebol na forma pura, do “underground”.

 Havia duas figuras que não se conformavam com os maus resultados da Selecção Nacional. Luís Brito, homem do hóquei em patins, reconhecia ao futebol a coroa de rei dos desportos e Cândido Coelho, o Bebequinhas, entrara na jogada. No dia seguinte, Taquim e Américo Silva foram chamados a abraçar o projecto. A ideia cresceu. Cresceu até se tornar o maior evento desportivo infanto-juvenil que Moçambique conheceu.

Era o SOBEC — Sociedade de Bens de Consumo —, a empresa estatal que Luís Brito dirigia e que importava material desportivo. Era também, depois, o BEBEC, homenagem carinhosa a Cândido Coelho, o Bebequinhas dos meandros desportivos tal como reza a história. E era, acima de tudo, uma máquina de fabricar sonhos.

 Quando o SOBEC nasceu, em 1988, o “Desafio” já tinha um ano de vida. Duas histórias entrelaçadas — não gémeas, mas irmãs. Um jornal que registrava; um torneio que fazia.

O SOBEC lançara Nonó, Chaquir, Énio, Dário Monteiro, Paíto, Dominguez, Genito, Mexer, Miro, entre outros. 

E hoje? Hoje, os “putos” de Mafalala — onde nasceu Eusébio — jogam futebol nos dedos, através de ecrãs de telemóvel. Os terrenos baldios viraram “dumba-nengues” e/ou centros comerciais. E o BEBEC, adormecido há seis anos, espera que alguém lhe traga ovos para a omelete.

O jornal sempre caminhou de mãos dadas. O reconhecimento não tardou. A 6 de Fevereiro de 1993, numa gala dos jornalistas desportivos promovida pela SOBEC na então Organização Nacional de Jornalistas (ONJ), com o apoio de federações, associações e clubes, o Jornal Desafio viu o seu chefe de reportagem, Boavida Funjua (já falecido) — “o homem que chamava os bois pelos nomes” — eleito melhor jornalista do ano de 1992, num concurso instituído pela própria organização do SOBEC. Vinte pontos. Seis votos de clubes. Dois de órgãos desportivos locais. Funjua foi ainda distinguido como jornalista desportivo mais dedicado do ano, com treze pontos. Levou para casa uma motorizada, oferta da Prosel, e um rádio gravador. Na mesma gala, Manuel Zimba, outra referência do jornalismo desportivo na rádio, viria a ser eleito o “Jornalista Revelação”. 

Mas a SOBEC não esqueceu quem estivera lá desde o princípio. Em envelope fechado, agradeceu a Rosa Inguane, que na altura prestava serviços ao jornal. E premiou, um a um, os profissionais de comunicação que tinham feito do torneio a sua causa: Renato Caldeira, antigo director editorial do Desafio; Jorge Matine, director editorial do Domingo; Albuquerque Freire, chefe de redacção do mesmo Domingo; António Muiambo, antigo chefe da secção desportiva do Notícias; o falecido Homero Lobo, antigo repórter do Desafio; Mohomed Galibo, chefe da secção desportiva da TVE (actual TVM); e José Durbeque, chefe da redacção desportiva da Rádio Moçambique.

O esforço do Desafio fora visto. E recompensado.O jornal não cobria o BEBEC. O jornal era o BEBEC. Nas páginas do semanário, o torneio ganhou dimensão, legitimidade, memória. Cada final, cada golo, cada “puto” descalço a correr na terra batida de Mafalala ou Chamanculo — tudo ficava registrado. O BEBEC confundiu-se com o Desafio. E o Desafio, com 39 anos de existência, tornou-se marca do futebol moçambicano.

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