Por algum motivo, os árbitros são contestados. O velho problema da arbitragem, com a “barba toda esbranquiçada”, mantém-se vivo e continuando a gerar desconfiança e ira, que consequentemente resulta em violência, atitude que, como qualquer cidadão do bem, repudio com veemência.
Em meio aos actos de violência nos campos de futebol, concretamente na zona Norte, o presidente da CNAF, Francisco Machel, tenta isentar os seus homens da culpabilidade nas últimas acções, consideradas como influentes em certos resultados.
Ao mesmo tempo, o chefe dos árbitros reconhece as condições logísticas para colocar os homens no seu exercício, jornada a jornada, situação que, por si só, pode gerar intromissões diversas e desconfiança.
O levantar da bandeira em defesa da sua turma é compreensível. O contrário seria preocupante. O que admira neste processo de defesa é dar a entender que o trabalho desenvolvido pelos árbitros é imaculado e que os treinadores e dirigentes usam a crítica para justificar as más prestações e respectivos percalços das suas equipas.
Em algum momento, Machel dá a perceber que apenas os árbitros são os conhecedores das leis de jogo, o que não é verdade. Também é preciso recordar que no seio da própria CNAF, num passado não muito distante, fez-se saber que a saúde da arbitragem não é saudável, a partir da gestão. E, perante o actual cenário, percebe-se que Francisco Machel tenta “sacudir a água do capote” ou mesmo branquear a realidade, ao mesmo tempo que procura inibir os treinadores e dirigentes de os criticarem o mau trabalho da arbitragem.
Não quero com isto dizer a reclamação dos outros agentes do futebol é sempre legítima. Entende-se que em alguns casos a apreciação ao trabalho dos árbitros nem sempre é de toda correcta. Mas, é verdade que os treinadores já vão ao campo preocupados, não só pelas fragilidades das suas equipas, assim como de treinar os seus jogadores a contornar o curso, que tem sido anormal de uma partida por conta de uma má arbitragem.
Não deve ser normal, mas o jogador muitas vezes entra mentalizado que, além de jogar, vai enfrentar um juiz que não deixa jogar; usa artimanhas para cortar as jogadas ofensivas; não assinala faltas claras passíveis de admoestação de cartões, ou que possam conferir em livres perigosos, grandes penalidades a seu favor porque quem manda dentro das quatro linhas vai decidir fazer vista grossa, beneficiando o infractor.
É fácil perceber que esse papel que o árbitro se presta não é isolado. Há sempre alguém por detrás. Ou seja, se o árbitro passa por corrupto, é porque existe o corruptor. A questão é: quem são eles e como agem?
No nosso futebol doméstico mostra que é cada vez mais difícil provar quem age para o mal, mesmo estando tudo evidente. Infelizmente, o exercício de encontrar a resposta sobre quem protagoniza tais acções não é para um cidadão sem treino para investigação. Ou seja, só a Polícia o pode fazer.
Em minha opinião, o árbitro nunca sairia de sua casa, entrar em campo, e por livre e espontânea recreação prejudicar a equipa a, b ou c. A não ser que seja pela sua cor clubística.
O árbitro erra, como um ser humano comum. Eram também os jogadores, treinadores, nas suas escolhas ou no trabalho que desenvolvem, ou até mesmo os dirigentes nas suas decisões. Entretanto, parece ser mais fácil ilibar o árbitro. Deve ser por isso que esse seja o “flanco” explorado pelos corruptores e corruptos.
É preciso reconhecer, por outro lado, ser mais fácil apontar o dedo ao árbitro pela sua visibilidade nas acções, quando o maior culpado pode estar a insultá-lo na bancada.
Quero lembrar que no passado o mau trabalho da arbitragem decidiu vários títulos, concedeu pontos a uns e retirou aos outros. Pode até ser pela má interpretação ou desconhecimento das leis de jogo dos próprios juízes. Talvez tenha sido por isso que no passado, quando era árbitro, Francisco Machel tenha sido forçado a sair de um campo, em Lichinga, sob forte protecção policial.
Também sou de opinião que se faça um trabalho de sensibilização à população desportiva para que entenda que nem sempre se pode ganhar (há três resultados), mas que também que se criem condições, pode ser em órgãos de comunicação social, para transmitir conhecimentos sobre as leis do jogo.
Porém, isso não retira o apelo à intervenção rigorosa da Polícia de modo que se sejam conhecidos os verdadeiros componentes do “papado da corrupção” no futebol moçambicano. Mais do que conhecê-los, devem ser punidos severa e exemplarmente.
Se não for para resolver definitivamente o problema, que seja para minimizar a situação.

