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Salvado está farto disto... (Foto: Arquivo)
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ENTREVISTA

UM DIA AINDA FARTO-ME DISTO TUDO!

Passam quarenta e três anos e continua intacto o recorde de 27 golos de Amad Chababe Amad, fixado em 1983, ao serviço do Desportivo de Maputo, num Campeonato Nacional, tal como perdura a marca de cinco golos marcados por João Vicente Cosso num só jogo pela Selecção Nacional, em 1980. Recordes que o tempo teima em não derrubar.

E no banco técnico, a história repete-se. Passam catorze anos e não surgiu, ainda, o treinador capaz de destronar a façanha de Arnaldo José Salvado, o homem que amealhou 15 títulos (10 do Moçambola e cinco na Taça de Moçambique) e transformou o banco moçambicano num território praticamente seu.

Zé, para os mais achegados, Arnaldo, para alguns, e Salvado, para muitos. O nome muda conforme quem fala, mas o registo é uno: dez campeonatos nacionais por três clubes diferentes, mais seis Taças de Moçambique, num percurso que atravessa três décadas de futebol moçambicano. Ninguém se aproxima.

Quatro campeonatos pelo Costa do Sol (1991, 1992, 1993 e 1994) — um tetracampeonato que permanece a marca mais longeva do futebol moçambicano. Quatro pelo Ferroviário de Maputo (1996, 1997, 1998/99 e 2002). Dois pelo Maxaquene (2003 e 2012). Nas Taças, a indelével marca no Costa do Sol (1988, 1992 e 1993), o título histórico com o então recém-criado Atlético Muçulmano, em 2008, e a Taça deixada ao Maxaquene em 2010.

Quinze troféus. Uma vitrina que, passados catorze anos sobre o último título, continua sem novo dono.

Arnaldo José Silva Salvado tem 67 anos. O último título data de 2012. Entre gabinetes burocráticos e saudades do relvado, Salvado deixa uma frase que soa a promessa velada, “Um dia farto-me disto e volto aos campos!”

A saudade e o desejo de regressar à realidade da pobreza franciscana do nosso futebol é confessada sem rodeios. Mais de trinta anos de futebol deixam marcas que não se apagam com um cargo de gabinete. “Isso, claro, não há dúvida. É uma coisa que sempre ficou, foram mais de 30 anos. Deixei os meus estudos de engenharia civil para ir atrás da bola, comecei como treinador de equipas de bairro. Equipas de crianças, com futsal, com juvenis e com juniores. Fui para “Pembinha” no tempo da guerra (dos 16 anos), andar de camião para ir fazer jogos em Montepuez, em Mocímboa da Praia, com as colunas militares. É uma vivência muito longa no futebol.”

A decisão de abandonar o banco técnico não foi ditada pela falta de convites. Foi uma escolha pessoal, marcada no seu calendário.

“Infelizmente, eu tinha decidido que quando eu fizesse 60 anos  deixava de ser treinador. Era uma decisão pessoal. E pronto, deixei. Lembro-me de que coincidiu, era o último ano em Nampula e pronto, nunca mais. E é verdade, já recebi até para a Selecção Nacional e tudo, fui contactado”.

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